25 fevereiro 2010

Caipira Capiau Pau-a-Pique

Criei-me pelos potreiros do sítio brincando de pilotar os galhos mais altos das árvores, lanchando as pitangas e nêsperas que as donas aeromoças imaginárias serviam, dormia a siesta na sombra do bambuzal ninada pelo toc-toc das taquaras bailarinas que dançavam no embalo fresco do Minuano. Eram espanholas que tocavam castanholas enquanto eu sonhava que viajava pela Espanha Del Rey.
Os saraus familiares eram ao som do rádio. No interior do Rio Grande do Sul, no início dos anos setenta, poucos haviam se viciado em tv. E dê-lhe rádio Globo, Tonico e Tinoco, Teodoro e Sampaio, Moreno e Moreninho, Milionário e José Rico, enchendo o ouvido do Brasil caipira. 
A maioria encerrava a noite placidamente, após ter batido o pézinho ao compasso da música de raíz. 
Um dia hei de morar em Piracicaba, planejava eu - e vou sem pai nem mãe - quando eu for grande, vou viver perto das águas do Piracicaba...E solta no mundo também quero ver pessoalmente as orquestras dos Concertos para Juventude. 
No sítio, enquanto eu era pequena, bebia um copo de leite com canela e açúcar mascavo antes de dormir e ouvia Ritinha do Pé Avermeiado. Quando adulta, em 1984, conhecendo São Paulo, visitei a exposição Caipiras Capiaus: Pau-a-Pique, no SESC Pompéia. Achei interessante o reflexo do que eu já conhecia, e mais interessante a reflexão na introdução do catálogo da exposição, em que Lina Bo Bardi escreve:
Esta é uma exposição “piegas”.  Não é o “Pueblo Español” do Generalíssimo Franco, nem as “rendeiras Portuguesas” do Dr. Salazar, nem O “Strapaese” do P.N.F.(Partido Nazionale Facista), é apenas uma anotação sobre a aristocracia rural-popular brasileira, enxotada pelas monoculturas. Também não é saudade, a história não volta e não é “Mestra”.
É um adeus e, a um tempo, o convite à documentação histórica do Brasil.
É uma Exposição política, esta claro. É uma Exposição dedicada também ao público do consumo, obrigado a “perder” os objetos que, ao invés de serem jogados fora, deveriam acompanha-lo ao longo da vida. Num certo sentido, é uma Exposição de Arte, mas a arte não consola nem tira ninguém da fome, sede e privação. Afirmar o contrário, é querer compatibilizar a vida humana com a miséria, é imobilismo, e o pior nas sociedades humanas, é o imobilismo. O que precisa deixar bem claro é que ficar apenas na fase da identificação das artes de uma comunidade é uma forma de achar um tranqüilizante para os que não têm sono na hora da sesta; é um dar voltas literárias em torno dos “castelos”.Mas a Poesia, mais do que a Arte, pode servir às vezes de anti-imobilísmo, de isca. Para os “Caipiras – Capiaus – Pau-a Pique”, o problema é imediato e contingente: “ter que ir embora”, como na velha toada sertaneja:
...não é muito bom
deixar a terra da gente
ter que ir para muito longe
onde tudo é diferente...
Importante é construir uma outra realidade.
Em 2003, fascinada pelas imagens de canaviais e histórias do movimento dos Sem Terra, eu quis muito vir para São Paulo, e nesta caleidoscopia que é a vida, fui morar em Teodoro Sampaio, que assim se chama em homenagem a um colonizador paulistano. A foto que ilustra este texto é de um trabalho que terminei ontem, é um objeto, talvez uma fruteira, chamo-o de Os Pés da Ritinha, o fiz com material reaproveitado. 
Clique no título da postagem  para o vídeo tributo que a boa amiga Ivone Cioffi, a Morena da dupla Morena e Moreninho, faz ao seu pai, o Moreninho que faleceu no ano passado.

É hoje, amanhã, ou até março.


A revista da AALP é uma publicação bianual, que há cinco edições reúne textos artigos e poesias de membros da Academia. Entre os escritores que integram esta edição, Nilzardo Carneiro Leão, Arthur Barreto Campelo e Lourdes Sarmento. Ha também artigo de Maria Tereza Netto Magalhães de Melo, presidente da academia. O escritor norte-americano Ernest Herminguay é o tema de Antônio Campos.

O SOPA DE LETRINHAS , UM PROGRAMA DE AUDITÓRIO 
"O Sopa de Letrinhas nasceu sob o signo de Dionísio. Nasceu pra ser festa! Celebração!Sarau não precisa ter cara de velório, por isso, o Sopa nunca flertou com a imortalidade acadêmica, nunca desejou ressuscitar o hype literário da Villa Krial, muito menos fomentar uma nova Semana de Arte Moderna. O Sopa é o que sempre quis ser: entretenimento puro. Um Programa do Chacrinha lítero-musical. Anárquico, debochado e, acima de tudo, democrático. No Sopa tudo pode. Todos podem. Pode o poeta laureado, o poeta udigrudi, o poeta cabaço, o poeta romântico, o poeta reumático, o poeta modernoso, o poeta místico, o poeta mequetrefe e o poeta pornográfico. Você gosta de poesia? De música? De bom humor? De gente do bem? Então, venha numa sexta-feira dessas provar a nossa Sopa."
Convite de Vlado Lima- http://clubecaiubi.ning.com/profiles/blogs/vlado-lima-2

Espaço João Paulo Machado, Projeto Reciclando com Arte no Clube dos Democráticos
Em março tem curso de preparação para atores. Se você vai participar de testes, avaliações, prova específica para faculdade de teatro ou simplesmente quer adquirir técnicas de interpretação e saber um pouco mais de teoria de teatro, Genilson Gouveia e grupo estarão ministrando um curso de teatro na Lapa, no Espaço João Paulo Machado, Projeto Reciclando com Arte no Clube dos Democráticos, no Rio de Janeiro, que continua lindo! 
Participe! 
Saiba mais clicando no link:http://cursoslivres.yolasite.com Ou ligue: 21 93970574 e 21 31857637b. 
Visite Artistas Cariocas em: http://artistascariocas.ning.com/?xg_source=msg_mes_network

24 fevereiro 2010

Édison Almeida - Mobilização Pró Madeira

TEMPESTADE DESCOMUNAL CAUSA IMENSOS
PREJUÍZOS NA ILHA DA MADEIRA - PORTUGAL.
A todos que puderem nos ajudar a divulgar a catástrofe que se abateu
sôbre a Ilha da Madeira, no último sábado, em decorrência de fortes chuvas, como reportamos em algumas imagens, agradecemos de todo coração!Estamos contando com todo tipo de ajuda, a qual agradecemos aos correspondentes internacionais e amigos, em nome dos Madeirenses e Residentes na Tradicional e querida Ilha da Madeira. A Cáritas do Funchal está recebendo as ajudas em roupas, alimentos, remédios e outras contribuições. O QUARTEL DO EXÉRCITO NA NAZARÉ está recebendo donativos e informações, para através dos seus meios de comunicação darem maior contribuição também a nível NACIONAL e Internacional.
O Grupo Pestana, também está recebendo ajudas e contribuições. À RTP MADEIRA, agradecemos seu noticiário dia e noite, desde o primeiro momento da tragédia.Ao Governo Regional a certeza de que O POVO MADEIRENSE E RESIDENTES estão unidos a V.Exa. neste momento de aflição e de angústia, certos de que é nesta hora que reconhecemos os VERDADEIROS AMIGOS DA MADEIRA, PORTO SANTO E TODO ARQUIPÉLAGO. Ao Sr. Primeiro Ministro de Portugal, Eng. José Sócrates nossos parabéns pela atitude imediata que teve em se deslocar a Madeira, e IN LOCO avaliar os prejuízos para de imediato colocar todo O GOVERNO DE PORTUGAL a disposição da Madeira e do seu Povo.
Ao POVO MADEIRENSE nossos mais profundos sentimentos e a certeza de que o mundo todo está se unindo para colaborar neste momento crucial das vossas vidas. Oremos pelos que partiram e confiemos na força dos que amam a
MADEIRA E SEUS HABITANTES!
Na foto: Édison Almeida - Autor do livro Avatar
Ilha da Madeira - Portugal -Uma única causa O PLANETA TERRA! www.ermitaodapicinguaba.com

A Emília se remenda


Quando acordar

hei de estranhar o conforto.

Que lindo e longo mergulho,

Delfin, calor interior de uma mãe.

Quando despertar, hei de estranhar a estreiteza

da saída do aconchego.

Hei de berrar e espernear.

Querendo voltar gritarei protestos

Quando acordar e me soltarem da minha mãe,

me molharem

e enrolarem em fibras ásperas,

hei de lembrar que

de secura e aspereza tive fartura,

e hei de ficar quieta...

e mais quieta a observar.

Vou me sentir fraca e pequena e vou querer dormir muito.

Até que me conquistem a confiança

e então hei de aprender a gostar

também destes pais,

talvez, desse lugar.


Novamente vou guardar retalhos

que costurarei

a minha colcha de saberes.

Quando ficar velha,

vou me enrolar nela e

dormir suavemente

numa cadeira ao sol...
No Link B J TomasRock and Roll Lullaby:
http://www.youtube.com/watch?v=bKAs4TPc0Tc



22 fevereiro 2010

Por onde anda Madame Butterfly?

O jornal da cidade traz hoje em um quadro pequeno a notícia de que foi encontrado morto perto da estação ferroviária um engenheiro florestal. 
 Ao lado do corpo havia uma garrafa de aguardente e duas cartelas vazias de medicamentos diferentes.
Com o jornal aberto nas mãos, ao ler a manchete passou pelos meus braços aquela moleza que me dá quando sou informada de que alguém que andava tentando morrer, conquistou o êxito pelo qual labutou.
Em outro tempo, noutra vida, conheci um engenheiro florestal. Conheci-o logo após ele ter perdido a filha de doze anos em um acidente de carro, não sei se já bebia antes da tragédia. Falava em retomar a profissão de engenheiro ou reunir sua antiga banda e voltar a tocar, eu sentia que ele não acreditava em suas palavras, mas analisava o contexto e tinha certeza que era só ele dar o primeiro passo e conseguiria.
Que mistério, que enigma que a pessoa sonhe querer, mas realmente não queira! 
Narrava histórias da época em que havia feito sucesso com uma banda de rock, e os amigos antigos testemunhavam seu talento.
Mesmo viciado na bebida - a desconstrutora de personalidades - transparecia potencialidades para refazer o seu espaço no mundo.
Deus seja louvado, que material interessante! 
Como o Homem é rico, e que capacidade esplêndida, esta da regeneração, desde a celular...
Nunca soube sua idade, era impossível adivinhar. Considerando-se um artista, optou pela aparência teatral, achava obrigatório andar maquiado, empoado, noite e dia, por isso, como bons Vikings, o chamávamos de Madame Butterfly. 
Os danos causados pelo alcool, se haviam, foram preenchidas pela vaidade, e ele era belo.
Foi músico, formou-se como engenheiro florestal.
Nas noites de quinta-feira, encontrávamo-nos, arquitetos, estilistas, profissionais da comunicação, gente de todas as cores e credos, o grupo do mundo, ouvíamos música, jogávamos conversa fora e nos hermanavamos em declarações sonhadoras e tiros para lua.
O lugar se chamava Glasnost e era uma segunda casa para qualquer um do grupo. A casa era uma mãe. A mãe dos artistas grandes da cidade pequena, e o Ceará, o garçom do grupo, era um filósofo residente e amado, eu era a menor e ele me dava coquetel de abacaxi sem alcool, eu sabia e apreciava o carinho e a esperteza.
Depois de uma vodka a mais, todos planejavam construir um castelo de areia maior do que o do outro, a minha era aguada, mas nunca precisei de vodka para sonhar mesmo...e eram sonhos sempre maiores do que a cidade poderia comportar, e estar com ele, o engenheiro florestal indignado nas noites de quinta era como ter uma audiência com a razão, mantinha o pé cravado no chão e sentenciava:
- Falácia! Vocês acham que é fácil? Eu duvido que tu, tu também - botava o dedo em riste na cara do condenado da vez - que qualquer um de vocês consiga, espalhava os dedos em maldição.
Desancava um a um, todos e sempre.
E nós, dóceis nos entregávamos aos seus ouvidos negativistas – era o nosso advogado do diabo, transmitia os avisos do duro mundo aos arautos dos anjos, e assim ajustávamos nosso equipamento de vôo para evitar colisões com o concreto. 
Pelo menos eu queria crer que a coisa era assim, e vá lá, para mim era. 
Com os olhos estrelados, expandidos de infinito em transes futuristas, contava-lhes que escalaria o Everest, que procuraria A Arca.
A voz da razão trovoava e aniquilava minhas expedições, arrasava minhas construções.
Declaro reconhecendo firma, após receber aquelas reguadas voltava para casa com os dedos inchados, achava que nem conseguiria mais trabalhar, amedrontada e culpada por ter ousado declarar espiritualidades e sonhos suaves em público. Adormecia pensando que era mesmo assim: tudo impossível...
Ainda bem que uma noite de sono sempre repõe nossa real natureza. 
Ao despertar apalpava-me sem abrir os olhos, avaliando o que sobrara ileso após os vaticínios do amigo, e sorria endiabrada, me sentindo porém, abençoada como se fosse um poeta que tivesse sido laureado com o Prêmio Jabuti, e sobre suas costas voasse sobre terras e mares apreciando a criação e as bençãos; constatava que continuava farta de sonhos, grande em energia e rica de imaginação.
Ter sonhos é vital, é o que nos impulsiona a seguir em frente, ter sempre um estoque de pequenos sonhos e alguns grandes e ser louco o bastante para acreditar mesmo nos mais difíceis de concretizar, ser surdo e não ouvir a voz da razão que nos diz para ficar plantados, enraizados na experiência alheia. Ser cabeçudo e continuar acreditando neles, até quando a própria mãe diz que não vamos conseguir realizá-los. Amar-se o bastante para saber que merecemos coisas boas...
Passaram-se vários anos, eita vida, que agora tenho mais sonhos, não esqueço dos antigos, e ainda lembro dos conselhos!
Meti meus pés pelas mãos, me envolvi em projetos grandes demais para o momento ou lugar em que os abracei... às vezes dá uma canseira!

Mas a noite vem e ao amanhecer os sonhos estão lá.
Basta esperar.
Dar-se tempo!
O maior sofrimento ainda é abrir o jornal e descobrir que alguém ficou perdido nas glórias ou problemas do passado,
sem olhos para enxergar o presente
e sem forças para desafiar o futuro.
Erechim/RS - 09.02.03.
No Link, Madama Butterfly -Tu piccolo Iddio:
http://www.youtube.com/watch?v=spI0ZT4DoAI

19 fevereiro 2010

Purim - Oficina História e Doces

Retire o ingresso gratuito na bilheteria. Chegar com 1 hora de antecedência para a oficina - Contribua com 1 kg de alimento não perecível a ser doado ao Programa de Ajuda Acompanhada. Centro de Cultura Judaica, Rua Oscar Freire, 2500, ao lado do Metrô Sumaré www.culturajudaica.org

Os Cegos do Castelo

fotos feitas por Eloir Torres Hass - 1997, acima o sofá da Iris, abaixo o Cegos do Castelo, chapa galvanizada com elementos metálicos e solda
Em 1997, eu compartilhava o atelier com a Iris. Ela era braba e enérgica. Controlava-me e proibia que eu deitasse no sofá dela. 
Eu a amava como atriz canastrona e a achava muito simpática no desempenho do seu personagem ranzinza.
Na minha metade do atelier ficavam os cavaletes, uma poltrona e algumas mesas de apoio. No lado dela o forno, suas estantes, mesa e um confortável sofá encapado de curvim floral. Eu e meus alunos estávamos proibidos de sentarmo-nos nele.
-Porque, Iris?
-Ah, é porque eu não gostaria mesmo!
O sofá era muito fofo e quentinho.
Quando ela não estava, entre um trabalho e uma aula eu deitava e ouvia música.
Não queria aceitar que o Arnaldo Antunes tivesse saído dos Titãs, virado lobo solitário, dava trabalho caçar CDS dele, e deles, e mais ainda: dissociar um dos outros. 
Eu já gostava de Engenheiros do Haway e Titãs. Havia passado muito tempo em silêncio. Agora todo mundo me apresentava músicas. 
O Celso me apresentou a Enya e a Lorena McKennit, a Maria Eliza me informava em Villa Lobos e Madredeus, e a Inge? Não, a Inge só dizia que eu não deveria abandonar o estudo da história da arte, nunca, nunca, nunca! 
Numa tarde, depois de ouvir Cegos do Castelo pulei do sofá e corri para a serralheria do Aldenor, cortei uns trecos, soldei uns tróços, fui até a IMASA - o senhor Bruno Fuks, o proprietário, me havia dado passe livre, catei umas bolinhas de ferro e retalhos de peças das colheitadeiras para anexar ao meu novo quadro. Mais uma correia de motocicleta e deu! 
O Aldenor, agora mais acostumado com a ideia de que tudo que eu fazia, batizava, andava cheio de inspiração, copiou: Vou chamar cada encomenda pelo nome do dono. Ó, esse portão aqui, o nome é Dr. Ibrahim. Fulano, busca o Mario Tim!
Sobre meu painel ele queria saber: E essa galinha... passarinho, como vais chamar? Respondi que galinha e passarinho não eram: Talvez...não sei! Mas pode chamar de Cegos do Castelo
Ainda tenho o Cegos do Castelo comigo, de vez em quando mudo a cor, quem o vê, acha o nome pesado, o tema...e a obra. Logo que o fiz esteve pendurado na frente da minha casa feito estandarte! Um dia, quando fui retirá-lo e percebi que estava bordado de furos e amassamentos, perguntei a um entendido, que sério, sentenciou: Estas perfurações, nesta chapa, foram feitas por calibre tal, este por calibre tal e estes, ah, isso é só chumbo!
Eu já não me deitava no sofá de ninguém, e a Iris continua jurando que encontrar minhas plumas no sofá dela nunca foi motivo para tanta raiva.
De qualquer forma, sempre achei o cúmulo da gentileza, decência e pacifismo, terem metralhado meu trabalho enquanto eu não estava por perto.

O texto acima é introdução ao convite que fiz aos amigos, para o 21 Salão de Artes de Pinheiros.A exposição aconteceu no Clube Paineiras, no Morumbi. 
Havia inscrito duas esculturas e duas telas para o concurso de 2008, sonhava expor pelo menos dois trabalhos. 
No ano anterior tive um selecionado para a exposição e fiquei encantada com o que vi da organização. 
Encantada desde a recepção até a cerimônia de abertura, onde só tratei com pessoas preparadas e gentis, especialmente entusiasmadas com seu trabalho. Passara o ano a sonhar com o próximo. Então em 2008, após análise do júri me ligaram, embora não tenha tido dois trabalhos selecionados como almejava, informaram que o meu trabalho em óleo sobre tela, que chamei de “Não Tenho Medo”, fora premiado com Medalha de Ouro. 
Passei o resto do tempo até a cerimônia a roer as unhas; medo que fosse sonho, engano ou sei lá...acho que mais pela consciência de que conquista assim, desafiava a mais. Uma amiga, a produtora Nadine Trzmielina, ao parabenizar-me, ironizou: 
-Uma anarquista, ganhando medalha de ouro num Salão tradicional como o de Pinheiros?
Induziu a crise: 
Anarquista, eu? Acho que eu sempre fui uma santa... Quase santa?
Nunca fui santa? 
Analiso, escarafuncho... a única certeza que resulta é a de que a gente nunca sabe exatamente quem é, só sei que seja qual for meu tipo de assanhamento, refestela-se lubricamente quando lembro da noite da Medalha de Ouro no 21 Salão de Pinheiros.

SOBRE A MODERNIDADE
...”Entenda-se aqui, por favor, a palavra artista num sentido muito restrito, e a expressão homem do mundo, num sentido muito amplo. Homem do mundo, isto é, homem do mundo inteiro, homem que compreende o mundo e as razões misteriosas e legítimas de todos os seus costumes; artista, isto é, especialista, homem subordinado à sua palheta como o servo á sua gleba. G. não gosta de ser chamado de artista. Não teria ele alguma razão? Ele se interessa pelo mundo inteiro, quer saber, compreender, apreciar tudo o que acontece na superfície de nosso esferóide. O artista vive pouquíssimo – ou até não vive – no mundo moral e político. O que mora no bairro Bréda ignora o que se passa no faubourg Saint-Germain. Salvo exceções, a maioria dos artistas, deve-se convir, uns brutos muito hábeis, simples artesãos, inteligências provincianas, mentalidades de cidade pequena. Sua conversa, forçosamente limitada a um círculo muito restrito, torna-se rapidamente insuportável para o homem do mundo, para o cidadão espiritual do universo”. Charles Baudelaire
Clique no título da postagem para ver a bela animação, bela e forte, para Cegos do Castelo  – Titãs


Tela "Não tenho Medo"-Medalha de Ouro no 21 Salão de Artes de Pinheiros , em exposição permanente na Associação Comercial de Pinheiros

17 fevereiro 2010

No Vácuo


A ausência me fecha
Me choca.
Pensamentos secos traças parcas idéias.
Armário velho areia do cupim
Escuro compartimento onde me recosto
Apática aguardo.
Ausência.
Mas eis que em algazarra chegam
os fantasmas frenéticos
me pintam me vestem
carregam-me na romaria do uso social.
Passada a ocasião
de novo e ainda – Ausência.
Aguardo em páginas pardas.
Nos sombras repouso.
Imóvel e empoeirada assustada.

Sala riscada pelo movimento da luz
das frestas – as horas.
Agora só mais um dia
mais um dia
mais um dia...


Giane Pereira Soares 03/02/2009

15 fevereiro 2010

Stop Carolyn!

Carolynn é uma loira bonitosa, um personagem de um filme trash americano, eu pintava e ouvia enquanto minha filha o assistia, e a Carolynn, por qualquer motivo, chorava. 
Era tirada da histeria por muitos stops.
O filme virou clássico em nossa casa e usamos o mote  sempre que alguém começa a testar limites. Vá com cuidado, pé de pano, senão você fica louca, louca tipo Camille Claudell. 
Calça o pé em algo que não conduz a nada, vai correr atrás do rabo eternamente, cachorro faz isso e é lindo, mas é por brincadeira. 
A foto dos dois rapazes matando o cachorrinho, que você me enviou é um mito da net. Pelo que apurei com especialistas, circula há anos, e não adianta oferecer recompensa pela identidade dos diabretes, parece que é registro de um festival na China. Não vai dar para denunciar no Brasil e se lá é festival, nem lá. O da ilha feita de lixo, sei não, mas seria bom que fosse verdade, lixo unido retornando a tona, verdade é que há muitos anos me ligo nas reportagens da National Geographic que mostram o que o homem faz com seu lixo e nada me deixa mais espantada, pasma com a estupidez do que quando largam balsas com tonéis de lixo tóxico, ou radioativo no mar.
O mar que liga tudo, que equilibra tudo.
Você também pergunta se eu tenho filhos, se eu gostaria que fizessem com meus filhos o que os cientistas fazem no laboratório com os animais. E é justamente porque tenho filhos e pais que quero que os pesquisadores trabalhem. 
É preciso pesquisarem a rotação acelerada. Eu que não sou especialista no assunto não encontro alternativa para pesquisa com animais, devemos procurar juntos, mas ainda me comove mais a dor dos humanos do que a dos animais e isso tem sido tema constante de conversas com meus modernos filhos, que já conseguem passar por bebês sem soltar qualquer exclamação, mas ao encontrarem um cachorro por mais cachorro que seja, não se privam de parar para fazer festinha no bicho e prodigalizar elogios. 
É tão difícil ter certeza absoluta, mas parece que tem algo errado nesta tendência geral. 
Quanto as pesquisas...que sejam controladas, regidas pela ética e públicas as descobertas. 
Evoluindo, ultrapassamos etapas. 
Não foi alienando-se na caverna a vestir porquinho da índia de bailarina que a humanidade evoluiu, e certamente este bizarro comportamento agora só pode ser fuga. 
Tendo duzentos e cinqüenta mil dólares para comprar passagem já se pode viajar via mochila voadora, enquanto pessoas morrem de câncer...ou dengue? Dengue matando? 
Não tenho dinheiro para a mochila, mas fui premiada na loteira genética com quatro filhos saudáveis. 
Meus irmãos e sobrinhos também, meus pais ainda são jovens e saudáveis. Eu acho que seria maravilhoso se doenças degenerativas ou decorrentes da velhice fossem eliminadas antes que eles fossem pegos. 
Não vou te enganar, mais do que vendo a foto do cachorrinho, sofro ao ver o vídeo do idoso paralisado que era espancado pelo seu cuidador, lá em Brasília.
Vi o vídeo que a família fez e levou à justiça. Sofri imenso pela decisão da juíza estúpida que analisou o caso e liberou o agressor por que não havia exame de corpo delito no caso, e não aceitou a filmagem da câmera escondida como prova. 
Urina jogada na cara não deixa marcas, juíza idiota, stop Carolynn! 
E a família dizendo que não acredita mais em justiça dos homens, acredita em Deus...
Já passou da hora de sermos envolvidos por um tsunami de descobertas científicas, 
soterrados por uma avalanche de soluções, que talvez até já existam e não podem vir a tona para serem devidamente apuradas porque ainda damos poder a autoridades dogmáticas e obscurantistas que estão na época em que sexo só servia para procriar. 
Stop Carolynn!
Num dia em que voltava do médico me perdi no metrô República. 
Estava de lentes novas, encantada com a padronagem e modelos de pessoas e roupas, variedade! Era quase 18:00h, e eu sabia que o local naquele horário não favorecia desnorteados deslumbrados com cores. Circulei um pouco mas não encontrei o buraco certo, freios guinchando motores vibrando e o som do sapateado farfalhante dos humanidade nos corredores ...Feliz, eu pensava que embora aquilo fosse confuso, tudo o que é novo é bom de ver, me considerava uma sobrevivente abençoada...Vi uma moça parada, só ela estava parada, me aproximei para pedir informação. Ela estava de costas e quando se virou para mim seus olhos eram profundos e enormes, o oco do mundo. Sua expressão de dor alucinada me levou a olhar para a criança que estava com ela e usava chapéu rosa que não cobria toda a careca. 
A menina vestia uma blusa floral e tinha nove ou dez anos. 
A mãe segurava um saco onde a filha vomitava.
Em pé, 
as duas paradas.
Câncer infantil!
Naquela hora eu mataria dez milhões de ratos para tirar-lhes o suco, se isso fosse preciso para salvar aquela menina, que era pele e ossos dentro do jeans moderno.
Você pensa que não entendo?
Cada vez que mastigo um bife sei de onde ele foi tirado, e como eu queria não precisar me alimentar de outros seres. 
Vegetarianismo? Pesquisadores já descobriram que as plantas reagem aos pensamentos das pessoas que delas se aproximam, que a água responde à música clássica. 
O que você sugere como solução?
Uma seria o desaparecimento do homem sobre a Terra; a Gaya livre de nós, o pessoal que não agüenta mais a própria cara, até desenterrou as tais profecias sobre o final em 2012. Cá com meus botões...acho que vamos ter que suportar nossas escolhas erradas ou falta de entendimento por muito mais tempo. Alternativa Maia?
Desta eu não gosto. Me desculpe se eu existo, diz Jarilene, a empregada doméstica interpretada pelo Tom Cavalcanti no seu programa humorístico, que ao fazer suas estrepolias e ser descoberta apela para o bordão:
Me desculpe se eu existo, planeta Terra, mas já que aqui estou...eu quero ficar até o último momento e quero ver o máximo que estes meus verdes olhos que a terra há de comer, e que já comeu mesmo, possam! Nesta vida, embora todo mundo na minha família seja saudável, eu fui premiada com ceratocone. 
E não reclamo, fui a escolha certa, porque de todos nós eu sou a única Pollyanna. 
Recentemente recebi dois transplantes...estava ficando cega. 
E meus olhos, meus olhos que são teus pintores, salvaram-se graças a dois pedacinhos de duas pessoas que haviam morrido e que familiares permitiram que servissem para eu continuar enxergando. 
Grattia Deum pelos homens da ciência.
Pela manhã quando acordo, a primeira coisa que vejo é a maçaneta da porta do meu quarto, e vejo o brilho que antes já havia e eu não via, sorrio e agradeço obrigado dr.Nosé
O dr.Nosé, durante as consultas me falou sobre um livro que esta escrito em inglês, no qual médicos que trataram de deformação ocular de pintores relatam suas experiências, e eu lhe faço sorrir quando conto o quanto fico extasiada ao ver o brilho de carros vermelhos, em movimento sob o sol. 
Ou linhas de faróis nos engarrafamentos noturnos. 
Eu nunca havia enxergado vermelhos tão lindos como os do trânsito de São Paulo.

E meu vídeo favorito do youtube:http://www.youtube.com/watch?v=ErMWX--UJZ4

13 fevereiro 2010

Lagoa dos Barros


Passando ao lado da Lagoa dos Barros é difícil conter uma onda de melancolia. Dizem que nas noites de neblina, por ali navega um barqueiro fantasma que é coisa mais sinistra do mundo! 
Sinal de que as coisas são como devem ser, não tem lugar melhor pra uma aparição tristonha do que lá, e nisso todos que conhecem, haverão de concordar. 
O asfalto margeia a lagoa, e a água parece um interminável espelho de mercúrio, um mar sem ondas, água pesada. Um mar morto, não o Mar Morto, um mar morto. Da beira da Lagoa dos Barros, para o lado de Osório se avista o campo eólico construído na administração do Germano Rigotto, que no seu mandato peleou um bocado para trazer a tecnologia da Espanha. 
Agora alguns gaiatos se dizem confusos; não sabem se a ventania do lugar é que gira os cata ventos ou se as pás dos ventiladores é que faz aquela brisa constante. 
Assim são os gaúchos, ecologistas de primeira, piadistas de marca maior. Nunca vi povo que goste tanto de encontrar graça nas próprias mazelas, dados a duplos sentidos e de quebra praticante de humor negro (que não se confunda com magia negra, que isso por lá mete medo). Meio desnorteados nas viagens, mas declarantes tranquilos de que todo lugar é bom, se é na Terra do bom Deus. Ou como diria o Pumba, lar é onde o bumbum descansa. Têm a fama injusta de exagerados. Usam a necessidade da vida social para discutir política. 
Os piás já nascem deste ou daquele partido. 
São gremistas se têm bom gosto, colorados se são despistados, na minha opinião.
No verão passado, numa tarde quando deitei para cochilar na rede, escutei dona Hilda, minha mãe, contando aos netos que leu numa reportagem especial o depoimento de um idoso da região de Três Coroas, que relatava um episódio pitoresco sobre um grupo de moradores do interior de Taquara, que na primeira metade do século passado, sem conhecer o mar, apesar de não morar tão longe dele, resolveu organizar uma expedição de reconhecimento que culminaria numas férias com acampamento na praia. Organizaram-se em suas carroças puxadas por bois, seguidas de mais algumas com barracas e suprimentos, seguiram a rota indicada de um, que na praia já estivera, mas que não acompanhou a expedição de dois dias de viagem.
A expectativa em conhecer o oceano era maior que as dificuldades da jornada, cujo trecho mais difícil foi a travessia pelas trilhas nos morros de Santo Antônio da Patrulha. 
Atiçados pela ansiedade do encontro com o mar, o berço, a fonte da vida na Terra, cansados pela jornada sobre pedregulhos e pântanos, não pestanejaram quando deram com os costados na Lagoa dos Barros, e prá lá de aliviados por encerrarem a expedição, montaram o acampamento e permaneceram por ali vários dias desfrutando do merecido descanso a beira mar. E tudo ficaria assim, no bem bom, se não fosse um viajante meter o bico na paz bucólica do acampamento. 
Passou de manhã, parou para tomar mate e durante a prosa informou-os do engano. 
Forcejou um bocado, pois eram muitos e sabiam que aquilo era mar, e ele sozinho insistia que não, que o mar estava adiante. Dois dos veranista resolveram tirar a limpo e conduzidos pelo viajante foram na direção onde a água era maior...e salgada.
Voltaram no fim do dia, e entre rirem-se de si mesmos e abichornarem-se enfadados com a fiasqueira do erro, desmontaram o acampamento e iniciaram o retorno para Taquara. Para ver o oceano verdadeiro voltariam noutra feita, que de férias na praia já se haviam fartado naquele ano.

Foto do Parque Eólico de Osório/RS na fase da construção, já pensou que lugar espetacular para uma quixotada?
A energia eólica é a energia obtida pelo movimento do ar (vento). É uma abundante fonte de energia, renovável, limpa e disponível em todos os lugares.Os moinhos de vento foram inventados na Pérsia no séc. V. Eles foram usados para bombear água para irrigação. 
Os mecanismos básicos de um moinho de vento não mudaram desde então: o vento atinge uma hélice que ao movimentar-se gira um eixo que impulsiona uma bomba (gerador de eletricidade).
Os ventos são gerados pela diferença de temperatura da terra e das águas, das planícies e das montanhas, das regiões equatoriais e dos pólos do planeta.
A quantidade de energia disponível no vento varia de acordo com as estações do ano e as horas do dia. 
A topografia e a rugosidade do solo também tem grande influência na distribuição de freqüência de ocorrência dos ventos e de sua velocidade em um local. Além disso, a quantidade de energia eólica extraível numa região depende das características de desempenho, altura de operação e espaçamento horizontal dos sistemas de conversão de energia eólica instalados.
A avaliação precisa do potencial de vento em uma região é o primeiro e fundamental passo para o aproveitamento do recurso eólico como fonte de energia. Para a avaliação do potencial eólico de uma região é necessário a coleta de dados de vento com precisão e qualidade, capaz de fornecer um mapeamento eólico da região.As hélices de uma turbina de vento são diferentes das lâminas dos antigos moinhos porque são mais aerodinâmicas e eficientes. As hélices tem o formato de asas de aviões e usam a mesma aerodinâmica. As hélices em movimento ativam um eixo que está ligado à caixa de mudança. Através de uma série de engrenagens a velocidade do eixo de rotação aumenta. 
O eixo de rotação está conectado ao gerador de eletricidade que com a rotação em alta velocidade gera energia.Um aerogerador consiste num gerador elétrico movido por uma hélice, que por sua vez é movida pela força do vento. A hélice pode ser vista como um motor a vento, cuja a quantidade de eletricidade que pode ser gerada pelo vento depende de quatro fatores: da quantidade de vento que passa pela hélice do diâmetro da hélice da dimensão do gerador do rendimento de todo o sistema A energia eólica é considerada a energia mais limpa do planeta, disponível em diversos lugares e em diferentes intensidades, uma boa alternativa às energias não-renováveis.


Ative o link ou clique no título para A Pampa Pobre -Engenheiros do Haway:
http://www.youtube.com/watch?v=voGlx7J6Zvo

12 fevereiro 2010

A Rainha da Beleza

O Matheus dizia que a avó dele era muito braba:
- Tem o canteiro das rosas mais lindas que já vi e não deixa eu tirar nem uma.
O Ivan, pai do Mateus, dizia que admirava a mãe: uma pessoa forte, uma lutadora.
A Luciana dizia da sogra: 
-Dona Ilti não descansa nunca.
Um dia fui apanhar o Matheus para passearmos, ele tinha cinco anos, já se havia despedido dos pais, muito contente por ir com a tia para a casa dos outros avós. 
Estávamos de saída e ele me pegou pela mão e puxou para o lado do galpão:
-Vem, quero que você diga oi para minha vó.
Atravessamos o pátio e entramos pelo vão aberto do celeiro, do outro lado localizamos a figura da mulher alta que conduzindo algumas vacas aproximava-se e com um cajado na mão colocou cada animal em uma báia onde tocos de cana de açúcar recém cortados entretinham os animais.
O clima era frio e úmido, a avó do Matheus calçava botas de borracha e usava um pesado casaco de lã e um lenço de seda desbotado cobria-lha todo o cabelo, por trás dos óculos de grandes e grossas lentes, sorriu a esquelética e gigantesca vovó:
-Boa tarde, dona Ilti, não descansa nunca?
-Que jeito? Agora vou ordenhar as vacas e depois alimentar os peixes, para páscoa têm que estar prontos...Mas não quer chegar um pouco, tomar um chimarrão? O Ivan e a Luciana acabaram de chegar, vá lá com eles que logo eu me junto a vocês.
-Não dona Ilti, estou com pressa, outra hora, quando a senhora estiver mais descansada. Quero falar sobre a história da Jackobina Maurer com a senhora, ela foi sua bisavó, não?
- Ah, sobre isso não sei de nada. Nada a declarar! Sorriu e me despachou.
Antes de entrar no carro com o Matheus farejei um pouco o vento. 
O ar puro do entardecer, o aroma das flores brancas do gengibre que cresciam ao lado do rio Padilha ardia nas narinas causando vertigem, ainda mais combinados com a visão da cordilheira de morros em volta, a beleza e a organização da propriedade rural de cultura diversificada dos avôs do Matheus; açudes, plantação de milho, área coberta com árvores novas - "madeira de lei para o futuro dos netos".
Dona Ilti e o marido cuidavam de tudo, de vez em quando contratavam um peão:
- Quando não vencemos o trabalho...
Dez anos se passaram.
No terceiro dia de 2009 eu descia a avenida Paraguaçu em direção ao mar com minha filha e o meu sobrinho, o Matheus. Ele me puxou pela mão  excitado ao ver um casalzinho em um restaurante: 
-Venha dizer oi para a vó Ilti!
Olhei para os lados e não localizei a vó Ilti, mas o Matheus já estava abraçado a um casal que levantara-se de uma mesinha ao ar livre onde tomavam shopp.
A avó Ilti agora era uma mulher cheia de curvas e bronzeada com shorts curtos e estava abraçada a um senhor...que não era o avô do Matheus!
Sorri o quanto meu queixo caído permitiu e sob aquele cabelo escovado, a face radiante da maquiada e sorridente avó do Matheus combinou comigo um happy hour para o dia seguinte: Tenho muita coisa para te contar, Giane!
-Ah, eu também. vó...digo Ilti.
Ilti Hatzemberguer apareceu com o álbum de fotografias em baixo do braço.
Cumprimentamo-nos e não foi preciso muita introdução, perguntei:
- Como...tudo isso?
-Bom... me aposentei, vendemos um tanto do mato de reflorestamento e compramos esta casinha na praia. 
Alugamos o sítio e eu encontrei um grupo de amigos no clube da melhor idade. Todos os dias tem alguma atividade. 
Quando comecei a frequentar o grupo, logo me convidaram para concorrer a Rainha da Primavera, pelo Clube SABAL. Surpreendentemente venci, isso foi em setembro. Eu levei o convite na esportiva, fiquei perplexa por ter vencido. Meu marido sempre me dizia que eu era muito feia.
Ele não gostou que eu tenha vencido. 
Então me chamaram para concorrer para Rainha da Beleza da Melhor Idade do litoral norte do Rio Grande do Sul - isso foi em outubro, foi em Arroio do Sal, eu aceitei. 
A turma estava muito motivada e fomos em comitiva, eu fui pela brincadeira, mas lá, competindo com dezenas de candidatas, venci novamente!
-E o seu marido?
-Parece que não gostou. Um dia cheguei em casa e ele estava com as malas feitas para voltar para o sítio. Disse que ia viver com uma vizinha. 
Perguntei se estava certo da decisão, ele respondeu que sim, afinal, já tinham um caso há trinta anos.
-E você, o que disse?
-Nada. Não disse nada. 
Eu é que tirava os fios do cabelo pixaim da mulata dele quando eu lavava as roupas depois que voltava da casa dela. 
Um dia, quando os meninos eram pequenos, meu filho me levou até o caminho batido que ele encontrou no meio da plantação, por onde o pai ia até a casa dela, todos os dias depois do almoço. 
Trinta anos...
-Porque você deixou passar?
Mas eu tinha filhos pequenos e ele sempre foi muito brabo, nas brigas ele atingia minha auto-estima. Dizia que eu não era nada sem ele. E eu abracei o trabalho frenético como fuga, nas piores horas eu me dizia “Calma Ilti”. 
Mas eu pensava que a vida era só o que eu conhecia no interior, eu casei muito cedo e nunca saí de lá.
-Hoje, qual sua rotina?
-Pela manhã, a primeira coisa que faço é tomar banho e colocar bobs no cabelo, depois começo minha maquiagem, faço uma refeição leve e vou para o clube, três vezes por semana tem baile de tarde. Nunca durmo tarde e não vou à praia para não pegar sol, minhas caminhadas à beira mar são a tardinha. Quando não tem baile eu passeio com minhas amigas, adoro ir ao shopping, adoro!
Tenho muitas amigas e boa saúde. Todos dizem que têm que se arrumar melhor quando saem passear comigo.
-E o Namorado?
-Fernando? Conheço ele há cinco anos. Mas estamos namorando há um ano e oito meses. Quando o conheci e me apaixonei, eu achava que isso nunca aconteceria comigo, foi aí que comecei me estimular a superar os meus traumas. Desde que o vi, quando o vi a primeira vez, me apaixonei.
-Você gostaria de dizer alguma coisa para quem enfrenta problemas parecidos com os que você teve?
-Que ninguém que esteja vivendo uma crise se desespere pensando que a vida terminou, porque com certeza dias melhores virão.
Eu mesma...nem acredito...tudo o que passei, e hoje lembro sorrindo.
-E sobre a Jackobina Maurer e a batalha dos Mucker’s?
-Ah, nãããõ, não quero falar nisso! 
Põe ai, na-da a de-cla-rar.

RS 03.01.09

10 fevereiro 2010

Convite

Até sábado ainda dá para visitar a exposição do V Salão de Verão na Galeria Mali Villas Bôas, que fica na Rua Tabapuã, 838. 
A tradutora, colega do grupo de contação de história, a uruguaia Suzana Supervielle já foi e deu feed-back sobre, disse também que tomou um café bem especial na livraria ao lado da galeria. 
Eu estive lá ontem para ciceronear o gemólogo, Dadji, o pai de Krishna, a carioquinha que é uma das principais musas de suas poesias. Dadji entregou-me  o valioso material para estudo enviado pela artista plástica Lenora Porto Telles Píres, e ofertei-lhe um exemplar do Universo Paulistano, e ele pediu dedicatória, eis ai a parte difícil para uma tímida. 
Optar pela solução enigmática do: Sem palavras, ou a agradável, embora demorada, com cem palavras? Na oportunidade conheci um companheiro de Clube Caiubi, o Marcos Oliva, que mandou um quebra-costelas a toda indiada do clube - mais ou menos...na verdade ele disse: -Adoro o pessoal, gente fina do Caiuba, dê meu abraço a eles! Especialmente ao Ricardo que conquistou o Prêmio Globo do ano passado. Marcos Oliva é um dos artistas expositores, tem duas telas na galeria e quando o fotografei ele estava organizando sua bike para partir rumo ao Paraíso, no melhor sentido, naquele único em que desejamos estar por enquanto, o Paraíso que fica perto da Avenida Paulista. 
Ele mora lá, e ontem deu aquela pernada saudável, até o Itaim Bibi, onde fica a galeria. Na ida para a exposição passei pelo canteiro de obras que é o largo de Pinheiros; trânsito parado, asfalto em pandarecos. Aproveitei a parada para fotografar umas bandeiras hasteadas sobre um prédio, naquela ordem, município, estado e país, tremulavam lindamente ao vento que vem antes da chuva de cada tarde, sem medo de espichar o braço para fora posicionando a câmera, pois com Bento e Neemias estacionados ao meu lado, nada temeria!
No link um hino, o hino do Rio Grande do Sul:
http://www.youtube.com/watch?v=vyOicZulVNU