21 junho 2016

A Zuca

Ela nasceu numa família tradicional do interior do Paraná, foi educada na rigidez dos costumes e disciplinada nas lides do lar. 
Tornou-se uma menina graciosa e esguia. Uma moça bonita e dinâmica. 
Podia dizer que tinha quinhentos irmãos, mas não chegavam a dez, eram seis, ou sete, talvez, recordo-me unicamente da irmã mais velha que tornou-se freira e foi para o Vaticano, pois essa era o coração acolhedor que ela sempre citou.
Um dia esta moça se apaixonou pelo namorado. Muito. E tudo o que aprendera, da vigilância dos costumes, tudo no que fora disciplinada desde bebê, foi para o espaço. 
Cedeu aos arroubos do rapaz e permitiu-lhe intimidade que conforme a família, só poderia conceder após o casamento. 
O rapaz espalhou a novidade do troféu, o pai não conseguiu fazer um acordo de casamento e ela foi expulsa de casa.
Sem mais nem menos.
Não soube preservar a virgindade? A comunidade toda sabia do ocorrido.
Ela estava fora.
Muito prendada disciplinada mas sem qualquer contato fora do familiar, agora sem teto nem proteção. Foi ser mulher da vida.
Os anos passaram e ela reaparece noutro estado, morava agora no interiror do RS, era empresária administrando com mão de ferro seu próprio bordel.
Um boizinho italiano do lugar amava, amava tanto ela, que se desconfiava de alguma infidelidade ela pagava -lhe com um olho roxo, mas não se deixavam. A família aconselhou o moço: 
-Tira ela da zona. Casa com ela, chega de fiasco de judiar desta moça.
Ele casou-se, ela investiu no casamento sua disciplinada poupança. 
Comprou-lhe uns caminhões, financiaram uma casa, dali um pouco ela adotou um menino nascido de uma das moças que antes trabalhava para ela.
Dali um pouco eles adotaram uma menina de outra moça das que trabalhara para ela.
Os anos passaram, a vida de casado não é fácil, eles eram passionais, ele mantinha uma vigilância severa sobre os passos dela, e ela acatava tudo como zelo, como amor, do homem que a aceitou, apesar dela "ter passado".
Ela tornou-se modelar, além das prendas do lar que trouxera da faculdade familiar, tornou-se uma artista valorizada na cidade, produzindo peças belíssimas de tecelagem em crochê, não qualquer crochê, ela usava linhas especiais da experssura de linha de costura, fios tão finos quanto os de cabelos sedosos e produzia para a elite da cidade, peças que cobrava o que valiam, que as clientes pagavam qualquer montante para terem no enxoval das filhas, ou na decoração de suas mansões, peças distintas como as que a Zuca fazia...
Ele, um dia, apaixonou-se por outra e Zuca viu a vida mudar rapidamente, novamente. 
Novamente estava sozinha, com os filhos, e do investimento em carretas e caminhões que fizera para o ex, nada restara, somente sua casa.
Não soube dela por alguns anos, um dia me localizou e me telefonou. 
Eu fora casada com um sobrinho do seu boy italiano, quando me casei, foi ela que me ensinou muito de prendas domésticas, ela e seu marido levaram-me em oculistas doutras cidades, ela foi minha tia, então. E uma das boas. 
Só escapei-me sem aprender sua fina tecelagem devido a minha baixa acuidade visual, já que ela era militaresca nas prendas que julgava essenciais uma dona de casa saber. Foi conversando com ela, vendo como era duro para ela, viver vinte e quatro horas por dia em busca de afirmação e do respeito social, que tomei conhecimento do sofrimento que as moças da difícil vida fácil, nunca se livram, nem quando deixam a profissão mais antiga do mundo.
Quando vim a ter notícias novamente, ela mesma me deu por telefone, eu morava em São Paulo e ela me descobrira via internet.
Abrira, na casa que fora seu lar, um bordel. O tal, o das unniversitárias. somente moças selecionadas, e os clientes? Advogados, empresários e juízes, nada menos para suas meninas.
Ninguém compreende mais a sociedade do que a Zuca, ninguém sabe melhor os mecanismos que a fazem movimentar-se do que a Zuca, uma administradora capaz de fazer prosperar seja lá o que lhe for entregue para administrar. Infelizmente o destino veio-lhe com más cartas, mas ela faz o seu melhor. A Zuca é a Maybelle Merriwether do clássico filme E o Vento Levou. escritinha, esculpida em carrara. Durante o tempo em que convivemos em família, vi ela sempre prestativa, disposta a ajudar, e testemunhei as más pagas que recebia, por ter passado.
E,  hoje ela está de aniversário, completa sessenta e nove anos. Como qualquer criança, como uma menina, tratou de alimentar seus contatos antecipadamente via facebook, de contatar os distantes e perguntar se ainda lembram dela, para não ser esquecida em seu aniversário.
Como fez meu sobrinho, o Vini que completou dezessete esta semana, e duas semanas antes, anunciou diariamente em seu perfil.
Dois seres bonitos e amáveis, que não se conhecem, mas são especiais em meu coração.
meu confuso coração, onde todos que amo, são um.
Somos todos Um.
Estou escutando Panis Angelicus, aqui está, para a minha tia por consideração e para meu sobrinho mais jovem, com os votos de uma nova idade cheia de saúde, amor, pax e realizações.



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