22 julho 2020

A Willow morreu.


Ela veio para casa ontem, é maltês e tem olhar humano, perdido no meio de imensa maciez branca e suave, seu pelo liso com algumas ondulações em algumas parte como ao longo da coluna  e  nas  pontas,   assim  que fica  longo.   
Ela tem uma mancha off white no meio da alvura, fica do lado esquerdo, perto do rim.   
Na segunda semana de vida conosco, foi roubada, mas  todos os amigos dos meus filhos se mobilizaram para buscar por ela no  pequeno bairro da pequena cidade,  e  com tal  alarde e intensidade que no final da tarde quem quer que a  tenha escondido a devolveu no  quintal  da casa debaixo de um  balde no centro da  calçada. 
No centro de um quintal com muros de três mestro de altura e onde já a havíamos buscado como primeira possibilidade.
Foi um alívio tão grande encontrá-la, que nenhum questionamento foi feito.    
Aceitamos a  benção de reavê-la e tratamos de nunca  perdermos de vista por um minuto.
 Nos mudamos para a capital e ela era presente a cada uma e  todas as cenas familiares.   
Eu  não soube adestrar e é preciso reconhecer que nunca pensei nela como um cão, mas como um ente espiritual de ternura e sinal  de  merecimento nosso. Então, quando minha filha e meu filho pequenos estipularam uma rotina de ela dormir uma noite no quarto de cada um eu não opus grande resistência.
Eles levavam a caminha mas eu os despertava com a cachorrinha  nos braços deles,  amassada e zonza assim que saltavam da  cama.    
Eu havia  proibido,  mas  faziam e  achávamos graça  na expressão de humanidade  dela ao  ser descoberta debaixo dos  edredons, no amanhecer, chata de calor  e conforto. 
O filho artista de adereços dizia que precisava encontrar  uma profissão em  que  enriquecesse, para mandar cloná-la  antes que ela envelhecesse.   
Ela morreu hoje, 15 anos depois de nos acompanhar em três mudanças para duas cidades diferentes além de onde ela nasceu, mas até os dez anos de idade, aproximadamente, cismava que todo menino de dez anos acompanhado de uma senhora fosse o menino do canil onde nasceu. 
Descobria uma dupla similar em cada lugar onde morávamos e esperava o horário de passarem para ir para a janela ou sacada fazer alarido inesgotável, para que a vissem ali; “Será que não lembravam de entrar onde ela estava? Vai ver tinham esquecido do endereço”, todos os dias. 
Sempre foi interessante ver a ideia do espírito humano geral à respeito do papel que um cãozinho deve interpretar. Deve ser vigilante, então se late está intimidando, esquecem-se de que latir é a única forma dos cães dizerem algo em alto e bom som para serem ouvidos e o latido pode representar muitas coisas, geralmente representa uma cópia do discurso do tutor que o criou acrescida do temperamento do pró´rio cão. Para a primeira dupla que ela esperou, no segundo endereço para onde fomos, eu disse algumas vezes da hipótese que eu tinha de que fosse lembrança do menino filho da juíza que me vendera ela. Era uma babá e um menino que ela levava após ao almoço para a academia que havia do outro lado da rua, depois de um tempo o menino se curvava e fazia um chamego nela através da grade quando eu estava com ela na garagem. 
Isso reforçou uma memória positiva nela, que depois que nos mudamos para o apartamento da sacada do quinto andar cismava com mais alarido com duplas que tinham qualquer semelhança com a dupla anterior, ou mesmo com o menino da juíza, se é que é possível tão duradoura memória residual. 
Na época do apartamento, o meu filho adolescente já crescera e fora morar com a namorada que declarava que preferia gatos. Ele vinha nos visitar esporadicamente e no dia que avisava que viria, exatamente meia hora antes dele despontar na esquina, ela ia para a sacada e começa a apurar a orelha ou arfar em pé para o portão do condomínio. Quando ele apontava lá em baixo, sem que déssemos mostra de que era ele, ela enlouquecia de alegria e corria para a porta esperar e farejar pelo vão a chegada dele no elevador. 
Eu desconfiava que ele vinha mais para vê-la do que a nós, mas no final devia ser uma mistura de emoções. Tentou levá-la para passar alguns dias consigo, uma vez que morava numa casa e nós permitimos, pois nos afligia o cárcere dela no apartamento, mas no final de alguns dias a trouxe e ficou bem claro que a namorada seguia preferindo gatos, uma vez que queixava-se muito dela fazer xixí e ter que providenciar papéis como banheiro. 
No apartamento também era mais perceptível que para ter um cão é preciso muita dedicação e uma rotina de limpeza que na casa bem grande onde moráramos se diluía entre calçadas e quintal que se limpava com mangueira duas vezes por semana. 
Se no apartamento as obrigações de cuidar passo a passo do banheiro dela eram uma constante, ao menos havia fartura de jornais descartados pelos vizinhos na lixeira do andar. Tínhamos então a gatinha Tai e a Willow e minha filha substituiu o grude e carinho pela Willow, que ela recebia dos filhos que se casaram antes de nos mudarmos da casa.
Depois que deixei ela passar aqueles dias com o casal passei a me colocar no lugar dela, um dia, dois dias, três, as noites...numa casa onde a senhora preferia uma dupla de gatos e tratava a cachorrinha preferida do marido como um estorvo e senti arrepios. 
E ela passou uma semana lá. Isso foi inconsequência minha, só eu podia avaliar que o animal se apega a rotina, a cada mínimo detalhe da sua casa e deslocá-lo é algo traumático, por mais que com um dos seus familiares, exigiria uma rotina de cuidado que meu filho no basquete intenso do trabalho e viagens diários, não podia dedicar. o que sobrou para ela naqueles dias?
Não gosto de imaginar ela pelos cantos ouvindo baboseiras, ou sozinha com os gatos donos da casa o dia inteiro.
Como é complicada a questão da entrada de uma nova pessoa em uma família! O quanto mexe com o núcleo, quanto a cultura em que foi criada importa para a paz do grupo em que se insere! E destas alterações fundamentais é feita a história da humanidade.
Era uma fase complicada de choque com a nova realidade econômica da família. Eu havia me separado e não havia nada que não houvesse tentado para tornar-me autossustentável, contatos, exposições investimentos em material para exposições, na montagem de mostras que pareciam não poder ser infrutíferas, mas tudo foi. 
Ansiava por um pouco de apoio e desafogo mas não veio e não houve, aconteceu, porém de eu sofrer uma violência médica em um posto de saúde ao passar por exames anuais de controle de câncer de útero e receber sobre isso, o resultado de um falso positivo de câncer e ser encaminhada de forma célere a um tratamento quimioterápico em um hospital especializado, que eu sabia com todas minhas forças, não ser real.
E todos nós da família fomos afetados por isso.
A Willow não ficaria de fora, e embarcou conosco numa jornada de retorno ao meu Estado natal, morar em uma pequena casa que meus pais mantinha para invernadas, e que diante do diagnóstico de câncer que comuniquei a eles, eles disponibilizaram para nós.
Com apoio de uma amiga de longa data, uma empresária que custeou as despesas de mudança, chegamos ao interior do Estado, numa zona rural e comecei a organizar e reformar de forma emergencial na casa que não oferecia condições de habitabilidade constante, que servia para o fim a que era usada antigamente, somente temporadas de recreio descontraído.
Nos primeiros meses a minha filha moça foi viver com a tia e primos solteiros em uma casa numa cidade de grande porte próximo à capital, diante dos quadros alérgicos que a Willow começou a apresentar, vimos por bem que ela fosse experimentar uma temporada com a sua tutora preferida de abrações e beijos. As reformas em que mexíamos com objetos velhos acumulados, paredes apodrecidas e a liberação constante de mofo, cimento e serragem no ambiente, a chegada do inverno mais frio da vida dela e a umidade circundante na casa, faziam com que eu pensasse nos inúmeros pontos positivos dela estar com minha filha na cidade, a extrema pressão fez com que não levasse em conta que a moça permanecia o dia o todo fora no trabalho em um shopping, que a liberava somente no meio da noite para o retorno à casa. 
Um dia o primo me ligou para contar de uma quase tragédia ocorrida na noite anterior, em que minha filha chegou cansada e colocou óleo para  preparar batata-frita e deitou-se para esperar que aquecesse e  adormeceu. Despertou com as lamúrias da Willow, que arranhava a porta do quarto e grunhia. A menina acordou-se sonolenta e ato contínuo despejou as batatas na panela fervente que entrou em ebulição atingindo o teto que era constituído de uma forração plástica que imita tabuas de lambri. 
Por ser à prova de fogo, o material ao ser atingido pela bola de fogo, derreteu e despencou enquanto a menina debelava as chamas como podia. O teto desceu até meia parede e Deus colocou a mão para que não atingisse a menina nem a cachorrinha, que não sofreram qualquer queimadura. No dia seguinte me dirigindo para lá fiquei estarrecida pela monta do dano material e pela sorte que tivemos.
Meu tio providenciou a mão de obra, adquiriu o material e o conserto foi feito antes de eu chegar, fiquei com as despesas que foram as mais alegres que já honrei em minha vida, e informada da aspecto horrenda do acidente através de fotografias que dão conta de um verdadeiro milagre e do ato heroico da menina e sua babá canina. 
Cada vez que me recordo do episódio e vejo a linda e saudável aparência da minha filha, é impossível não render gratidão a Willow, que longe de ser um cachorro, sempre foi um ser místico.
A missão dela naquela casa já havia sido comprida e a trouxe de volta comigo e começou nossa luta com suas alergias que alguns  brutos daqui chamavam de sarna. 
Começou a longa fase de sete anos de altos e baixos na saúde dela, em que desenvolveu tumores, foi operada e teve o útero removido e entre alergias e dores de ouvido constantes, desenvolveu um grande tumor na axila e vários nódulos na barriga que vieram a coloca-la em metástase num quadro de tentativas de mutilações em que se arranhava até tirar sangue. 
Ela foi colocada para dormir na última quinta-feira.
Enquanto meu filho e eu preparamos sua sepultura a velamos no hall de entrada até hoje, domingo, quando a sepultamos na sua caminha em formato de berço, envolta na coberta que ela mais amava, uma colcha branca aveludada com grandes rosas vermelhas estampadas, três dias após a passagem. O seu corpo repousa no seco, a terra que causou tanta alergia nela e à qual ela não conseguiu desenvolver anti-corpus, não a tocará.
 O que há a dizer sobre a Willow, sobre sua exposição às duras condições que nos afetaram nestes últimos anos em que vimos a porta do compartimento do compressor que trazia a água do poço e a máquina serem sabotadas por duas vezes, e que além disso não tivemos como honrar mais consertos para desfrutar de água limpa? O que há a dizer sobre termos que consumir e usar para higiene a água da fonte, que ficava lamacenta nos invernos, que eu fervia mas não perdia a cor alaranjada, o que há para dizer, além de que eu pensei em enviá-la para cada uma das pessoas que conheço para livrá-la disso, mas que sabia que ela sofreria ainda mais longe de nós, pois ninguém conhecia suas rotinas, ninguém sabia fazê-la mais feliz do que nós, com nosso simples presença e cuidados?
Posso dizer que desde algum tempo estiva tão conectada as rotinas dela que vou ter que me conhecer novamente. 
Desde que minha filha saiu de casa ela passou a dormir no meu quarto para que eu a controlasse durante as crises de arranhões, de vômitos em função dos medicamentos. 
Desde que ficou doente toda a roupinha eu fiz para agasalha-la no inverno ou enfeitá-la no verão, ela arranhava até rasga-la, após um ou dois dias de uso. Tenho aventado a possibilidade de dar-lhe descanso, de dar-me liberação, há anos. Sempre que a encontrei sangrando e ferida, sempre que se escondeu, se eu a perdia de vista por minutos, se mutilava. Eu sabia que isso não era vida, mas ao consultar veterinários e meus filhos, eles nunca autorizaram, pois ela caminhava bem,  e sempre para receber visitas ela esperava de banho tomado e roupa nova cobrindo os nódulos e chagas.
Ultimamente, há três meses aproximadamente, ela estava atacando a própria testa, com as unhas das patas traseiras coçava até arrancar a pele entre os olhos. 
Da primeira vez que fez isso,  ferio um olho e descobrir estes ferimentos me deixava em estado de pânico, era como se fosse em mim mesma, eu chorava, ficava perdida, zangada, desconsolada com a situação, dava um banho e por 24 horas ela permanecia bem, normal, dava aquela esperança de que fosse longe até a próxima crise, mas cada vez foi dando mais forte e o banho com dois tipos de shampoos ao mesmo tempo já não resolvia, shampoos caros que eu não ouso adquirir para o meu cabelo, seguido de anti-alérgico e remédios ara otite crônica. 
No Natal passado recebemos a visita da minha irmã, que é casada com um homem que foi por muitos anos o magarefe e abatedor mais valorizado da região, pois fazia o abate das rezes de forma ritual, eles não nos visitavam há anos, e assim que sentaram-se, a Willow, que não o conhecia, foi até ele e parou na sua frente de tal maneira que paramos de conversar para observá-la, ela se aproximou mais, e diante dele curvou a cabeça e encostou o topo do craneo na perna dela e ficou naquela postura por algum tempo.
Ela reconheceu nele o chernobog. 
Para mim que conheço a história, a postura dela foi horribilis!
 Nos últimos anos foram apenas algumas noites de sono contínuo, desenvolvi a rotina de dormir ao amanhecer, quando apago de canseira e sono e ela também. 
Devido as sabotagens nas máquinas de lavar roupa, também lavo à mão a nossa roupa e os panos, enorme quantidade de panos para cuidar dela, entre toalhas, esfregões e roupas. 
Nos últimos dias, quinze dias aproximadamente ela passou a dormir mais, com o inverno mais rigoroso passei a fazer fogo todos os dias porque ela praticamente ia a falência, ficava acinzentada e passava a transpirar um suor viscoso se não havia fogo, ela não tinha mais calor próprio, e não importava o quanto a envolvesse em cobertas. 
Depois que passei a fazer fogo todos os dias e colocar sua cama ao lado do fogão, ela passou a dormir mais de vinte horas por dia, mas as crises eram mais cruéis e ela sangrava mais facilmente, agora atacando a testa constantemente, nos últimos dias aparentemente não sabia se localizar, mas sempre, todos os dias tinha o mesmo apetite de quando era bebê.
Todos os dias caminhou, até o último dia, o essencial para fazer xixi e defecar onde desejava e voltar para cama, e depois para me acompanhar ao quarto quando eu ia me deitar eu tinha que levá-la, se eu me recolhia com a intenção de retornar dentro em breve para buscá-la ou tomar banho antes de me deitar efetivamente, ela se mutilava horrivelmente, já não podia me perder de vista. Eu a levava, e então ela sentava-se na sua caminha e eu a cobria com cobertores bons e novos que destaquei para seu conforto do que era certo serem seus últimos tempos.
A velamos na sala da entrada, com uma vela de sete dias de nossa Senhora Aparecida e incenso de duas qualidades. 
Quando removemos seu berço fúnebre, havia se estabelecido uma corrente de elos em formato de losangos entre onde ela repousou e o banquinho onde colocáramos a vela e os incensos. Marcou a tábua do chão como  se tivesse sido formada naturalmente assim.
Ela nunca foi um animal.
O seu papel nesta família ela cumpriu com amor, louvor e honra. Sinto-me culpada insuficiente e incapaz de prover melhores condições de vida a ela, de ter chamado a veterinária para colocá-lá para dormir, apesar der saber que fiz o melhor que estava ao meu alcance fazer, assim como me questiono se este meu sentimento de incapacidade de tomar esta decisão antes não foi uma pena a mais para ela. Em dezembro ela ofereceu a testa ao chernobg, não havia nada a aguardar. Não estou certa de nada, baseio-me nas conclusões do meu filho que cresceu com ela, que chorou sentidamente sua morte, que tomou a frente na conclusão do seu funeral, que diz que não havia outro jeito, e no fato dela ter deixado um desenho tão bonito no chão quando subiu pela coluna de incenso e luz da vela.
A vocação para o correto e bom sempre é bela, mesmo que não seja a mais fácil.
Ela recebeu o nome de Willow para homenagear a vovó sábia de Pocahontas. 
Em 2010 foi atropelada e praticamente morreu, mas devido aos bons cuidados dos médicos da clínica Rebouças, ela foi operada e sobreviveu razoavelmente sem sequelas. Tive que vender um carro  muito bonito, o único bem material que ficou comigo na separação, para custear tratamento e cuidados que já começaram a correr quando a primeira clínica depois de avaliá-la desenganou-a. 
Fiz sem titubear porque ela era da família, mas contra os danos das doenças que ela amortizou para que não nos pegassem, agora que estava tão velhinha, não haveria argumento salvador, e vê-la perder a razão de dor era horrendo e insuportável. 
Há meses eu tinha a sensação de que estava com um problema cardíaco, pois a opressão no centro do peito era contínua e com taquicardias esporádicas, eu estava conectada a ela e esperando sempre pela próxima crise, em que só minhas mãos resolveriam fazendo curativos, dando banhos ou massagens, Eu estava em pânico e refém de uma condição que não sabia mais como administrar. Minhas mãos seguem inchadas de administrar o fogo de forma diária.
Na manhã da última quinta, a dra. Marlise veio e a colocou para dormir. Ela estava com cinco nódulos na barriga e um tumor gigante perto da axila. Estava se mutilando a lambedura e mordidas nos últimos anos, e precisava de cuidados o tempo todo, ser vigiada para não entrar em crise e se machucar.
Eu fiz.
Minha mente estava conectada 24 horas por dia nos cuidados para com ela, cuidá-la, admoesta-la. Eu a tocava e ela parava. Quinta a dra. Marlise finalmente veio, finalmente concedeu-lhe o repouso derradeiro de forma digna e sem dor.
Morreu nos meus braços, eu não sei, estava nos meus braços e de repente não estava, eu não sei!
Eu a perdi e ela ganhou a paz e o descanso que já há anos devia ter sido concedido. Eu fui tentando, tentando, esperando que com esse ou aquele tratamento, esse ou aquele medicamento ela reagisse e voltasse a pular e correr e latir e gargalhar, e demorei demais a entender que estava cada vez pior para ela e para mim.
Para mim tem sido horrível, imagine para ela. Enrolada na sua manta, Deitada na sua cama foi sepultada, com suas coisinhas em um lugar onde os pássaros e borboletas costumam frequentar, em um túmulo coberto pelo azul infinito da abóbada celeste e o arbusto que mais florece na casa, com profusão de flores violetas por longa temporada assim que começa a primavera.
A Willow morreu, a Willow viveu, a Willow foi amada por todos e agora sinto o que antes só intuía. Mas desde que a dra. Marilize veio, o meu coração começou a melhorar e hoje a dor continua é uma lembrança de dor, ela foi substituída pelo sentimento de perda que uma hora será substituído só pelas boas lembranças.
...
SEGUNDA PARTE
A QUE TRATA DOS AMORES DA WILLOW

Hoje são dez dias da passagem da Willow. Onde a sepultamos já desabrocharam algumas pequenas flores carmim, que não sei especificar o nome e algumas cor de rosa pink, que chamamos beijo.
A vela de sete dias que ascendemos no seu velório terminou de queimar quatro dias depois sob uma redoma de garrafa pet que fiz para deixar sob um arbusto ao lado da sepultura que também fica próximo a um caquizeiro que há três dias começou a brotar, embora eu tenha tido muito receio que tivesse secado e morrido como a bergamoteira que produzia frutos que eu amava e admirava tanto. É algo tão insólito e estranho, saber que a Willow morreu mas sentir que agora está mais viva do que em todo esse tempo de crises. Eu me aproximo donde ela jaz e sinto o enigma da vida, forte, pressionando todo meu ser.
Ainda não sei o que vou esculturar para colocar no lugar do seu descanso, Esta noite imaginei um carrossel em forma de cata-vento com várias Willows recortadas em prateado correndo. Quando ela ainda não estava doente e corria seu pelo longo e sedoso criava aimpressão que ela não estava ligada ao chão, era uma mancha branca de pura alegria se movendo em tal velocidade que sua cara toda ficava descoberta e dava para ver o sorrisão.
Estou deslocada com sua ausência, mas aproveitando para colocar ordem em todos os lugares que eu não sentia vontade, sabendo que teria que dar mais um passo e tocar nos seus ferimentos, e sempre aquela limpeza dos seus pelos, ou encontrar suas roupas rasgadas, o eterno lavar de panos. O eterno lavar de panos e o medo de pegar a doença dela, o cuidado que tinha que ter com minhas mãos e meus olhos de córneas transplantadas, o medo, a pressão, a angústia...mas realmente tudo de bom que faço é sentindo que a Willow foi para o hospital, está na clínica e depois de sã vai voltar, é muito difícil criar o conceito de Willow concluída, acabada e finita. Somente quando paro e medito no assunto, quando vou até onde está sepultada que sei, com todo o peso do significado de saber que ela está morta.
Lido com a constatação de que todos desejavam que ela morresse naturalmente, não importando seu sofrimento, nem muito menos o meu, a não ser o meu filho caçula nenhuma outra pessoa parece entender, mas ao contrário, aparentemente todos sentiam prazer de saber que sofríamos e se sentiram frustrados que o sofrimento não tenha sido ainda maior e mais longo. É o que sinto, ao menos.
E disso eu entendo, dos sentimentos humanos.
Estou feliz em pensar em fazer um retrato da Willow, o que me inspirou a fazer uma galeria dos bichinhos da família. Temos o coelho, o Passão, que é o Passo Largo, cinza, lido e fofo, com seus cinco anos ou mais de idade, a Silmarillion cuja idade é difícil de precisar, pois a encontramos já adulta, embora muito machucada, magra e pequena, era adulta, conosco cresceu e se desenvolveu, terá mais de três anos, certamente, e a Tai, que encontrei na rua em São Paulo, morrendo de sede, uma gatinha de três ou quatro meses, e isso já faz mais de sete anos.
Fazendo uma lista a gente “sabe” que são muitos, enquanto não faz, só sente cada um como uma individualidade e não faz contas. Estou surpresa de considerar a idade da Tai, ao escrever, é sempre como se ela fosse nossa bebê, especialmente meu filha a trata assim, e a filha, inclusive, fez uma tatuagem no ombro com o retrato dela, o irmão mais velho, que é tatuador  é que a realizou e me impressiona a leveza do traço e o belo desenho, é talvez a tatuagem mais bonita que já vi, delicadíssima e significativa.
Minha antiga professora de yoga está entre meus amigos no facebook, depois que deixamos de ser vizinhas nos afastamos definitivamente em função de divergências políticas, eu crítica ela pró situação no governo anterior, mas estivemos muito próximas na fase em que morei com a família na Vila Madalena, e foram oito anos.
Ela tinha um cãozinho maltês, o Jimmy, que chamávamos de Jimão, e ele e a Willou eram namorados. Ele era um pouco mais jovem que ela, um pouco mais alto, também, Era o filho único da minha mestre e vivia tosado ao capricho, sempre de pelo corto.
Como ambas tutoras são yogues, eu yogue ela mestre yoguine, os animaizinhos namoravam platonicamente, já que a Willow tinha cios discretíssimos e de ano em ano, eles se alegravam em se ver, corriam em círculos e sorriam e o entrevero ficava nisso, embora o Jimão fizesse questão de afirmar sua masculinidade tentando impregnar a casa com seus feromônios quando eles nos visitavam, urinando onde a bexiga permitisse.
Nós conversávamos e eles brincavam de correr, é provável que se ficassem por uma temporada juntos pudessem ter um romance de cão, efetivo, mas isso não se deu, dizíamos um dia, é quem sabe, uma hora, e ficou nisso.
Quando ela sofreu um acidente que poderia tê-la matado ou aleijado, pensamos que não andaria mais, foi internada, passou por uma cirurgia de grande monta e no retorno para casa, realmente não andava. Assim que chegamos a coloquei no sofá e a campainha tocou, a minha professora de yoga e amiga e o Jimão espiavam no portão.
Ao entrarem o Jimão ficou em pé ao lado do sofá para olhar para a Willow, acabrunhada e deitada, então resolveu ir para a ronda de fazer xixí pela casa.
Assim que o perdeu de vista, a Willow pulou do sofá e foi atrás dele, e fizeram xixi juntos em amor e paz.
Ela não ficou com qualquer sequela para andar, mas provavelmente seu organismo interno foi afetado, já que sofreu deslocamento do fígado e rins, rompeu o diafragma e teve o pulmão perfurado com deslocamento do quadril quando foi atropelada.
Enfim, retomamos a vida sem a necessidade de efetivar uma cadeira de rodas para a parte posterior do seu corpo como eu estava construindo com meu carinho de feira que desmontara enquanto ela estava internada e os prognósticos eram desoladores se ela sobrevivesse.


Ela veio para casa ontem, é maltês e tem olhar humano, perdido no meio de imensa maciez branca e suave, seu pelo liso com algumas ondulações em algumas parte como ao longo da coluna  e  nas  pontas,   assim  que fica  longo.   Ela tem uma mancha off White no meio da alvura, fica do lado esquerdo, perto do rim.   Na segunda semana de vida conosco, foi roubada,  mas  todos os amigos dos meus filhos se mobilizaram para buscar por ela no  pequeno bairro da pequena cidade,   e  com tal  alarde e intensidade que no final da tarde quem  quer  que a  tenha escondido a devolveu no  quintal  da casa debaixo de um  balde no centro da  calçada.  Foi um   alívio tão grande que nenhum questionamento foi feito.    Aceitamos a  benção de reavê-la e tratamos de nunca  perdermos de vista por um minuto.
 Nos mudamos para a capital e ela era presente e cada uma e  todas as cenas familiares.   
Eu  não soube adestrar e é preciso reconhecer que nunca  pensei nela  como um  cão, mas como um ente espiritual de ternura e sinal  de  merecimento nosso,   então  minha filha e meu filho pequenos estipularam   uma rotina de ela dormir  uma noite no quarto de cada  um .    Eles levavam a caminha mas eu os despertava com a cachorrinha  nos braços deles,  amassada e zonza assim que saltavam da  cama.    Eu havia  proibido,  mas  faziam e  achávamos graça  na expressão de humanidade  dela ao  ser descoberta debaixo dos  edredons,   no amanhecer, chata de calor  e conforto. 
Quando o quarto do  adolescente foi para o segundo piso da edícula  ele  passou a buscá-la  no quarto  dos  irmãos,   negaceava esperando que adormecessem e a  levava consigo e  dizia que precisava encontrar  uma profissão em  que  enriquecesse, para mandar cloná-la  antes que ela envelhecesse.   
Ela morreu hoje, 15 anos depois de nos acompanhar em três mudanças para duas cidades diferentes donde ela nasceu, mas até os dez anos de idade, aproximadamente, cismava que todo menino de dez anos acompanhado de uma senhora fosse o menino do canil onde nasceu. Descobria uma dupla similar em cada lugar onde morávamos e esperava o horário de passarem para ir para a janela ou sacada fazer alarido inesgotável, para que a vissem ali; “Será que não lembravam de entrar onde ela estava? Vai ver tinham esquecido do endereço”, todos os dias. Sempre foi interessante ver a ideia do espírito humano geral à respeito do papel que um cãozinho deve interpretar. Deve ser vigilante, então se lata está intimidando, esquecem-se de que latir é a única forma dos cães dizerem algo em alto e bom som para serem ouvidos e o latido pode representar muitas coisas, geralmente representa uma cópia do discurso do tutor que o criou acrescida do temperamento dele. Para a primeira dupla que ela esperou, no segundo endereço para onde fomos, eu disse algumas vezes da hipótese que eu tinha de que fosse lembrança do menino filho da juíza que me vendera ela, Era uma babá e um menino que ela levava após ao almoço para a academia que havia do outro lado da rua, depois de um tempo o menino  se curvava e fazia um chamego nela através da grade quando eu estava com ela na garagem. Isso reforçou uma memória positiva nela, que depois que nos mudamos para o apartamento da sacada do quinto andar cismava com mais alarido com duplas que tinham qualquer semelhança com a dupla anterior, ou mesmo com o menino d juíza, se é que é possível tão duradoura memória residual. Na época do apartamento, o meu filho adolescente já crescera e fora morar com a namorada que “preferia gatos”. Ele vinha nos visitar esporadicamente e no dia que avisava que viria, extamente meia hora antes dele despontar na esquina ela ia para a sacada e começa a apurar a orelha ou arfar em pé para o portão do condomínio. Quando ele apontava lá em baixo, sem que déssemos mostra de que era ele, ela enlouquecia de alegria e corria para a porta esperar e farejar pelo vão a chegada dele no elevador. Eu desconfiava que ele vinha mais para vê-la do que a nós, mas no final devia ser uma mistura de emoções. Tentou levá-la para passar alguns dias consigo, uma vez que morava numa casa e nós permitíamos, pois nos afligi o cárcere dela no apartamento, mas no final de alguns dias a trouxe e ficou bem claro que a namorada seguia preferindo gatyos, uma vez que queixava-se muito dela fazer xixí e ter que providenciar papéis como banheiro. No apartamente também era mais perceptível que para ter um cão é preciso muita dedicação e uma rotina de limpeza que na casa grande onde moráramos se diluía entre calçadas e quintal que se limpava com mangueira duas vezes por semana. Se no apartamento as obrigações de cuidar passo a passo do banheiro dela eram uma constante, ao menos havia fartura de jornais descartados pelos vizinhos na lixeira do andar. Tínhamos então a gatinha Tai e a Willow e minha filha substituiu o carinho que a Willow recebia do filhos casado.
Depois que deixei ela passar aqueles dias com o casal passei a me colocar no lugar dela um dia dois dias três, as noites...numa casa onde a senhora preferia uma dupla de gatos e tratava a cachorrinha preferida do marido como um estorvo e senti arrepios. E ela passou uma semana lá. Não gosto de imaginar ela pelos cantos ouvindo baboseiras de uma mulher que sempre considerei esquisita e que não chegamos a conhecer para apreciar ou dizer qualquer coisa.
Como é complicada a questão da entrada de uma nova pessoa na família, não é? O quanto mexe com o núcleo, quanto a cultura em que foi criada importa para a paz do grupo em que se insere!
Era uma fase complicada de choque com a nova realidade econômica da família. Eu havia me separado e não havia nada que não houvesse tentado para tornar-me autossustentável, contatos, exposições investimentos em material para exposições, na montagem de mostras que pareciam não poder ser infrutíferos, mas tudo foi. Ansiava por um pouco de apoio e desafogo mas não veio e não houve, aconteceu, porém de eu sofrer uma violência médica em um posto de saúde ao passar por exames anuais de controle de câncer de útero e receber sobre isso, o resultado de um falso positivo de câncer e ser encaminhada de forma célere a um tratamento quimioterápico em um hospital especializado, que eu sabia com todas minhas forças, não ser real.
E todos nós da família fomos afetados por isso.
A Willow não ficaria de fora, e embarcou conosco numa jornada de retorno ao meu Estado natal, morar em uma pequena casa que meus pais mantinha para invernadas, e que diane do diagnóstico de câncer que comuniquei a eles, eles disponibilizaram para nós.
Com apoio de uma amiga de longa data, uma empresária que custeou as despesas de mudança, chegamos ao interior do Estado, numa zona rural e comecei a organizar e reformar de forma emergencial a casa que não oferecia condições de habitabilidade constante, que servi para o fim a que era usada antigamente, somente temporadas de recreio descontraído.
Nos primeiros meses a minha filha moça foi viver com a tia e primos solteiros em uma casa numa cidade de grande porte próximo à capital, diante dos quadros alérgicos que a Willow começou a apresentar, vimos por be que ela fosse experimentar uma temporada com a sua tutora preferida de abrações e beijos. As reformas em que mexíamos com objetos velhos acumulados, paredes apodrecidas e a liberação constante de mofo e se4rragem no ambiente, a chegada do inverno mais frio da vida dela e a umidade circundante na casa, faziam com que eu pensasse nos inúmeros pontos positivos dela estar com minha filha na cidade, mas eu n~çao elvei em conta que a moça permanecia o dia o todo fora no trabalho em um shopping, que a liberava somente no meio da noite para o retorno à casa. Um dia o primo me ligou para contar de uma quase tragédia ocorrida na noite anterior, em que minha filha chegou cansada e colocou óleo para  preparar batata-frita e deitou-se para esperar que aquecesse e  adormeceu. Despertou com as lamúrias da Willow, que arranhava a porta do quarto e grunhia. A menina acordou-se sonolenta e ato contínuo despejou as batatas na panela fervente que entrou em ebulição atingindo o teto que era constituído de uma forração plástica que imita tabuas de lambri. Por ser à prova de fogo, o material ao ser atingido pela bola de fogo, derreteu e despencou enquanto a menina debelava as chamas como podia. O teto desceu até meia parede e Deus colocou a mão para que não atingisse a menina nem a cachorrinha, que não sofreram qualquer queimadura. No dia seguinte me dirigindo para lá fiquei estarrecida pela monta do dano material e pela sorte que tivemos.
Meu tio providenciou a mão de obra, adquiriu o material e o conserto foi feito antes de eu chegar, fiquei com as despesas que forma as mais alegres que já honrei em minha vida e informada da aparência horrenda do acidente através de fotografias que dão conta de um verdadeiro milagre e do ato heroico da menina e sua babá canina. Cada vez que me recordo do episódio e vejo a linda e saudável aparência da minha filha, é impossível não render gratidão a Willow, que longe de ser um cachorro, sempre foi um ser místico.
A missão dela naquela casa já havia sido comprida e a trouxe de volta comigo e começou nossa luta com suas alergias que os brutos daqui chamavam de sarna. Começou a longa fase de sete anos de altos e baixos na saúde dela, em que desenvolveu tumores, foi operada e teve o útero removido e entre alergias e dores de ouvido, desenvolveu um grande tumor na axila e vários nódulos na barriga que vieram a coloca-la em metástase num quadro de tentativas de mutilações em que se arranhav até tirar sangue. Ela foi colocada para dormir na última quinta-feira.
Enquanto meu filho e eu preparamos sua sepultura a velamos no hall de entrada até hoje, domingo, quando a sepultamos na sua caminha em formato de berço, envolta na coberta que ela mais amava, uma colcha branca aveludada com grandes rosas vermelhas estampadas . O seu corpo repousa no seco, a terra que causou tanta alergia nela e à qual ela não conseguiu desenvolver anti-corpus, não a tocará.
 O que há a dizer sobre a Willow, sobre sua exposição às duras condições que nos afetaram nestes últimos anos, em que vimos a porta do compartimento do compressor que trazia a água do poço e a máquina serem sabotadas por duas vezes, e que além disso não tivemos como honrar mais consertos, o que há a dizer sobre termos que consumir e usar para higiene uma água que ficava lamacenta nos invernos, que eu fervia mas não perdia a cor alaranjada, o que há para dizer, além de que eu pensei em enviá-la para cada uma das pessoas que conheço para livrá-la disso e que sabia que ela sofreria ainda mais longe de nós, pois ninguém conhecia suas rotinas, ninguém sabia fazê-la mais feliz do que nós, com nosso simples presença e cuidados?
Posso dizer que desde algum tempo estava tão conectada as rotinas dela que vou ter que me conhecer novamente, agora sozinha. Desde que minha filha saiu de casa ela passou a dormir no meu quarto para que eu a controlasse durante as crises de arranhões, de vômitos em função dos medicamentos. Desde que ficou doente toda a roupinha eu fiz para agasalha-la no inverno ou enfeitá-la no verão, ela arranhava até rasga-la, após um ou dois dias de uso. Tenho aventado a possibilidade de dar-lhe descanso, de dar-me liberação, há anos. Sempre que a encontrei sangrando e ferida, sempre que se escondei quando eu a perdia de vista por minutos, para se mutilar, eu sabia que isso não era vida, mas ao consultar veterinários e meus filhos, eles nunca autorizaram, pois ela caminhava bem,  e sempre para receber visitas ela esperava de banho tomado e roupa nova cobrindo os nódulos e chagas.
Ultimamente há três meses aproximadamente, ela estava atacando a própria t4esta, com as unhas das patas traseiras coçava até arrancar a pele entre os olhos. Da primeira vez que fez isso,  ferio ujm olho e descobrir estes ferimentos me deixava em estado de pânico, era comose fosse em mim mesma, eu chorava, ficava perdida, zangada, desconsolada com a situação, dava um banho e por 24 horas ela permaneci bem, muito normal, dava aquela esperança de que fosse longe até a próxima crise, mas cada vez foi dando mais forte e o banho com dois tipos de shapoos ao mesmo tempo já não resolvia, shampoos caros que eu não ouso adquirir para o meu cabelo. Nos últimos anos foram apenas algumas noites de sono contínuo, desenvolvi a rotina de dormir ao amanhecer, quando apago de canseira e sono e ela também. Devido as sabotagens nas máquinas de lavar roupa, também lavo a mão nossa roupa e os panos enorme quantidade de panos para cuidar dela, entre toalhas, esfregões e roupas... Nos últimos dias, quinze dias aproximadamente ela passou a dormir mais, com o inverno mais rigoroso passei a fazer fogo todos os dias porque ela praticamente ia a falência, ficava acinzentada e transpirar um suor viscoso se não havia fogo, ela não tinha mais calor próprio, e não importava o quanto a envolvesse em cobertas. Depois que passei a fazer fogo todos os dias e colocar sua cama ao lado do fogão ela passou a dormir mais de vinte horas por dia, mas as crises eram mais cruéis e ela sangrava mais facilmente, agora atacando a testa constantemente, nos últimos dias aparentemente não sabia se localizar, mas sempre, todos os dias tinha o mesmo apetite de quando era bebê.
Todos os dias caminhou, até o último dia, o essencial ara fazer xixi e defecar onde desejava e voltar para cama, e depois para me acompanhar ao quarto quando eu ia me deitar. Então, sentava-se na sua caminha e eu a cobria com cobertores bons e novos que destaquei para seu conforto do que era certo serem seus últimos tempos.
A velamos no hall, com uma vela de sete dias de nossa Senhora Aparecida e incenso de dus qualidades. Quando removemos seu berço fúnebre, havia se estabelecido uma corrente de elos em formato de losango entre onde ela repousou e o banquinho onde colocáramos a vela e os incensos. Marcou a tábua do chão como  se tivesse sido formada naturalmente assim.
Ela nunca foi um animal.
O seu papel nesta família ela cumpriu com amor, louvor e honra. Sinto-me culpada insuficiente e incapaz de prover melhores condições de vida a ela, de ter chamado a veterinária para coloc-lá para dormir, apesar der saber que fiz o melhor que estava ao meu alcance fazer, assim como me questiono se este meu sentimento de incapacidade de tomar esta decisão antes não foi uma pena a amais para ela. Não estou certa de nada, baseio-me nas conclusões do meu filho que cresceu com ela que chorou sentidamente sua morte, que tomou a frente na conclusão do seu funeral, que diz que não havia outro jeito, e no fato dela ter deixado um desenho tão bonito no chão quando subiu pela coluna de incenso e luz da vela.
A vocação para o correto e bom sempre é bela, mesmo que não seja a mais fácil.
Ela recebeu o nome de Willow para homenagear a vovó sábia de Pocahontas. Em 2010 foi atropelada e praticamente morreu, mas devido aos bons cuidados dos médicos da clínica Rebouças, ela foi operada e sobreviveu razoavelmente sem sequelas. Tive que vender um carro Toyota muito bonito, o único bem material que ficou comigo na separação, para custear tratamento e cuidados. Fiz sem titubear porque ela era da família, mas contra os danos das doenças que ela amortizou para que não nos pegassem, agora que estava tão velhinha, não haveria argumento salvador, e vê-la perder a razão de dor era horrendo e insuportável. Há meses eu tinha a sensação de que estava com um problema cardíaco, pois a opressão no centro do peito era contínua e com taquicardias esporádicas, eu estava conectada a ela e esperando sempre pela próxima crise, em que só minhas mãos resolveriam fazendo curativos, dando banhos ou massagens, Eu estava em pânico e refém de uma condição que não sabia mais como administrar.
Na manhã da última quinta, a dra. Marlise veio e a colocou para dormir. Ela estava com cinco nódulos na barriga e um tumor gigante perto da axila. Estava se mutilando a lambedura e mordidas nos últimos anos, e precisava de cuidados o tempo todo, ser vigiada para não entrar em crise e se machucar.
Eu fiz.
Minha mente estava conectada 24 horas por dia nos cuidados para com ela, admoesta-la nas crises. Eu a tocava e ela parava. Quinta a dra. Marlise finalmente veio, finalmente concedeu-lhe o repouso derradeiro de forma digna e sem dor.
Morreu nos meus braços, eu não sei, estava nos meus braços e de repente não estava, eu não sei!
Eu a perdi e ela ganhou a paz e o descanso que já há anos devia ter sido concedido. Eu fui tentando, tentando, esperando que com esse ou aquele tratamento, esse ou aquele medicamento ela reagisse e voltasse a pular e correr e latir e gargalhar, e demorei demais a entender que estava cada vez pior para ela e para mim.
Para mim tem sido horrível, imagine para ela. Enrolada na sua manta, Deitada na sua cama foi sepultada, com suas coisinhas em um lugar onde os pássaros e borboletas costumam frequentar, em um túmulo coberto pelo azul infinito da abóbada celeste.
A Willow morreu, a Willow viveu, a Willow foi amada por todos e agora sinto o que o que antes só intuía. Mas desde que a dra. Marilize veio, o meu coração começou a melhorar e hoje a dor continua é uma lembrança de dor, ela foi substituída pelo sentimento de perda que uma hora será substituído só pelas boas lembranças.
...
SEGUNDA PARTE
A QUE TRATA DOS AMORES DA WILLOW

Hoje são dez dias da passagem da Willow. 
Onde a sepultamos já desabrocharam algumas pequenas flores carmim, que não sei especificar o nome e algumas cor de rosa pink, que chamamos beijo.
A vela de sete dias que ascendemos no seu velório terminou de queimar quatro dias depois sob uma redoma de garrafa pet que fiz para deixar sob um arbusto ao lado da sepultura que também fica próximo a um caquizeiro que há três dias começou a brotar, embora eu tenha tido muito receio que tivesse secado e morrido como a bergamoteira que produzia frutos que eu amava e admirava tanto. É algo tão insólito e estranho, saber que a Willow morreu mas sentir que agora está mais viva do que em todo esse tempo de crises. Eu me aproximo donde ela jaz e sinto o enigma da vida, forte, pressionando todo meu ser.
Ainda não sei o que vou esculturar para colocar no lugar do seu descanso, Na noite passada imaginei um carrossel em forma de cata-vento com várias Willows recortadas em prateado correndo. Quando ela ainda não estava doente e corria, seu pelo longo e sedoso criava a impressão que ela não estava ligada ao chão, era uma mancha branca de pura alegria se movendo em tal velocidade que sua cara toda ficava descoberta e dava para ver o sorrisão.
Estou deslocada com sua ausência, mas aproveitando para colocar ordem em todos os lugares que eu não sentia vontade, sabendo que teria que dar mais um passo e tocar nos seus ferimentos, e sempre aquela limpeza dos seus pelos, ou encontrar suas roupas rasgadas, o eterno lavar de panos. 
O eterno lavar de panos e o medo de pegar a doença dela, o cuidado que tinha que ter com minhas mãos e meus olhos de córneas transplantadas, o medo, a pressão, a angústia. Agora faço coisas que estavam paradas há anos, esquecida de que ela morreu, sindo que foi para o hospital, está na clínica e depois de sã vai voltar. 
É difícil criar o conceito de Willow concluída, acabada e finita. Somente quando paro e medito no assunto, quando vou até onde está sepultada que sei, com todo o peso do significado de saber, que isso tudo aconteceu, ela está morta.
Lido com a constatação de que todos desejavam que ela morresse naturalmente, não importando seu sofrimento, nem muito menos o meu, a não ser o meu filho caçula nenhuma outra pessoa parece entender, mas ao contrário, aparentemente todos sentiam prazer de saber que sofríamos e se sentiram frustrados que o sofrimento não tenha sido ainda maior e mais longo. 
É o que sinto, ao menos.
E disso eu entendo, dos sentimentos humanos.
Estou feliz em pensar em fazer um retrato da Willow, o que me inspirou a pensar uma galeria dos bichinhos da família. 
Temos o coelho, o Passão, que é o Passo Largo, cinza, lido e fofo, com seus cinco anos ou mais de idade, a Silmarillion cuja idade é difícil de precisar, pois a encontramos já adulta, embora muito machucada, magra e pequena, era adulta, conosco cresceu e se desenvolveu, terá mais de três anos, certamente, e a Tai, que encontrei na rua em São Paulo, morrendo de sede, uma gatinha de três ou quatro meses, e isso já faz mais de sete anos.
Fazendo uma lista a gente “sabe” que são muitos, enquanto não faz, só sente cada um como uma individualidade e não faz cálculos. Estou surpresa de considerar a idade da Tai ao escrever, é sempre como se ela fosse nossa bebê, especialmente meu filha a trata assim, ela, inclusive, fez uma tatuagem com o retrato dela, o irmão mais velho, que é tatuador é que a realizou e me impressiona a leveza do traço e o belo desenho, é a tatuagem mais bonita que já vi, delicadíssima e significativa.
Minha antiga professora de yoga está entre meus amigos no facebook, depois que deixamos de ser vizinhas nos afastamos definitivamente em função de divergências políticas, e de eu mudar-me para uma região distante, eu era crítica, ela pró situação no governo anterior, mas estivemos muito próximas na fase em que morei com a família na Vila Madalena, e foram oito anos.
Ela tinha um cãozinho maltês, o Jimmy, que chamávamos de Jimão, e ele e a Willou eram namorados. 
Ele era um pouco mais jovem que ela, um pouco mais alto, também, Era o filho único da minha mestre e vivia tosado ao capricho, sempre de pelo curto.
Como ambas tutoras eram e são yogues, eu yogue ela mestre yoguine, os animaizinhos namoravam platonicamente, já que a Willow tinha cios discretíssimos provavelmente de ano em ano e só na fase em que ela e o Jimmy estiveram próximos. 
Eles se alegravam em se ver, corriam em círculos e sorriam e o entrevero ficava nisso. 
Embora o Jimão fizesse questão de afirmar sua masculinidade tentando impregnar a casa com seus feromônios quando eles nos visitavam, urinando onde a bexiga permitisse.
Nós conversávamos e eles brincavam de correr, é provável que se ficassem por uma temporada na mesma casa pudessem ter um romance de cão, efetivo, mas isso não se deu, dizíamos um dia, é quem sabe, uma hora, e ficou nisso.
Quando ela sofreu um acidente que poderia tê-la matado ou aleijado, pensamos que não andaria mais, foi internada, passou por uma cirurgia de grande monta e no retorno para casa, realmente não andava. 
Assim que chegamos a coloquei no sofá e a campainha tocou, a minha professora de yoga e amiga e o Jimão espiavam no portão.
Ao entrarem o Jimão ficou em pé ao lado do sofá para olhar para a Willow, acabrunhada e deitada, então ele resolveu ir para a ronda de fazer xixí pela casa.
Assim que o perdeu de vista, a Willow pulou do sofá e foi atrás dele, e fizeram xixi juntos em amor e paz.
Ela não ficou com qualquer sequela para andar, mas provavelmente seu organismo interno foi afetado, já que sofreu deslocamento do fígado e rins, rompeu o diafragma e teve o pulmão perfurado com deslocamento do quadril quando foi atropelada.
Enfim, retomamos a vida sem a necessidade de efetivar uma cadeira de rodas para a parte posterior do seu corpo como eu estava construindo com meu carinho de feira que desmontara enquanto ela estava internada e os prognósticos eram desoladores se ela sobrevivesse.
A Willow morreu e estou vivenciando esta passagem e avaliando o que fazer com tudo que parou nos últimos tempos.