10 agosto 2011

Larry Brilliant - Energia Renovável

     Foi um ano custoso de passar, doloroso e estranho, Larry enclausurou-se de alma esgarçada.     Falta do pai,  falta de vontade de seguir a fila, falta de...grana, não sei -faltando algo, sobrando interrogações. O pai morreu de câncer, poucos dias depois o rapaz de 19 anos perde também o avô...O lado negro da Força rondando, e os homens em fila.  Larry na caverna por um ano. 
Desaprendeu limites, casou-se com sua colega de escola; Girira, e passaram do quadrado para o círculo. Larry agora é médico, viajam para Índia, todos estavam lá. Em Nova Delhi conheceu Ram Dass (Richard Alpert,que mais tarde viria a fundar a Seva Foundation e Hanuman Foundation). 
     Girija convenceu-o a acompanhar Ram até as montanhas para juntar-se ao guru Neem Karohu Baba. Enquanto sombras escuras guerreavam ondulantes, os que lhes deram seu desconhecimento  meditaram e praticarm yoga com Baba Karomu. Mas o mestre não queria um médico estacionado ali, enquanto a epidemia de varíola vitimava meia Índia, após um tempo convivendo com Larry percebeu -mestres percebem - esse cara tem algo de santidade -  enviou o hippie a Nova Delhi para oferecer-se para trabalhar na Organização Mundial da Saúde, Larry partiu na mesma noite, foi recusado. De volta ao ashram, deu um tempo e voltou a carga, contrataram-no como ajudante no escritório, isso porque viajou para pedir qualquer vaga por umas doze vezes! 
     Numa das romarias encontrou um jovem descalço e careca no meio do caminho, ia para o seu ashram, era Steven Jobs (que mais tarde seria o co-fundador da Apple Inc e NeXT) a semente estava na Índia.    Steven ainda é budista, anda descalço e trabalha de bermuda, mas os adversários acusam-no de déspota, é o que podem; Hobbes escreve em Leviatã: "Os homens usam as palavras para ofender os outros; pois vendo que a natureza armou as criaturas vivas, umas com garras, outras com chifres e outras ainda com patas para ferir um inimigo, é um mero abuso da linguagem feri-lo com a língua."
     Quando Larry Brilliant foi aceito para o trabalho na OMS haviam aproximadamente 190.000 de casos de varíola e o pessoal da Organização viajava pelos mais remotos vilarejos tratando, conscientizando e muitas vezes agarrando à força para vacinar. Como não havia automóveis suficientes, Larry, para ele, alugou um elefante e por dois anos vasculharam vila por vila. Três anos após a entrada de Brilliant na organização a varíola estava erradicada da Índia. Larry tem carisma. Uma habilidade para administrar, organizar e inspirar." Declara o dr. D A Henderson, que foi chefe de Larry na OMS.
     Girija e Larry voltaram para casa, tiveram três filhos, ele escreveu: "Se a varíola pôde ser vencida na Índia, outros milagres podem se realizar por toda a nave-mãe Terra". Com Wavy Grave e Ram Dass, organizaram a Fundação Seva que tem por meta prevenir e curar a cegueira em países pobres; a primeira doação que receberam foi do careca descalço que Larry conheceu  na Índia: Stevem Jobs. 
     Sempre encantado com tecnologia, Larry desenvolveu o método de conferência virtual e fundou a NETI , disponibilizou equipamento e Stewart Brand, da Whole Earth Catalog, providenciou interessados em conversar via computador. Como o forte de Brilliant -um santo - nunca foi finanças, surgiram os problemas financeiros e em 1991 ele vendeu sua parte no negócio ao parceiro, mudou-se e com o irmão, abriu uma empresa de cartões telefônicos, andava no entanto com a mente no Wi-Fi, a tecnologia recém criada. 
     Quem o conhece e acompanha comenta sem assinar depoimento: "Larry não é um empreendedor de sucesso, seu corpo e sua alma sempre estiveram no mundo filantrópico. "Não há como assinar, Larry é unanimidade, um ser tão profundamente humano que destoa totalmente dos impulsos gananciosos do mercado.. Peter Gabriel diz que Larry transmite esperança, Bob Wier, co-fundador da Grateful Dead diz que Larry  "é uma porra de um santo de carne e osso". 
Mas seguindo a cronologia: deu com os burros n'água no negócio dos cartões telefônicos, o Wi-Fi engatinhava e ele andava a aprender junto, e agora era diretor executivo da Fundação Seva, constuindo clínicas de oftalmologia nos países de terceiro mundo e treinando médicos, o projeto sob seu comando restaurou a visão de 2 milhões de pessoas. Tinha os três filhos na faculdade e recebia na Seva o salário simbólico de US$ 1 por ano, o queridinho! 
     Andava sem saber o que fazer por si, já que pelos demais...quando em 2005, juntamente com alguns cientistas, pensadores e a elite do Vale do Silício, foi indicado e recebeu um Prêmio TED de US$100 mil.    Quando foi informado que receberia esta quantia para desenvolver um projeto que "tornasse o mundo um lugar melhor", achou graça e demorou a crer que não era trote. Pensou, pensou e adivinha: meses antes andara pesquisando o trabalho de uma fundação canadense que descobrira o vírus da SARS, ele empregou na pesquisa um programa de procura multi idiomas que o deixou ligado  no potencial da nova tecnologia, ideal para detecção e confrontamento de dados. Naquela época surgia a ameaça da gripe aviária através do vírus mortal H5N2, ele fora informado por um alto oficial da OMS, que a gripe aviária poderia matar cerca de 150 milhões de pessoas. Fez do rastreamento dos dados para detecção preventiva de epidemias usando e desenvolvendo a nova ferramenta, seu projeto. A Google, que foi fundada com a crença de que o capitalismo do Vale do Silício poderia salvar o planeta e tem como lema: "Não seja do mal", ofereceu-lhe emprego, para trabalhar na nova operação da Googleplex, a Dot Org, um experimento inovador sobre a experiência filantrópica que no Velho Mundo consistia em explorar, enriquecer e então doar uns trocados para a caridade, ou muito dinheiro - que fosse - mas investido de forma ineficiente. No livro O Fardo do Homem Branco, William Easterly critica duramente sistemas benfeitores tradicionais ocidentais, que nas últimas cinco décadas gastaram US$2,3 trilhões em ajuda  a países estrangeiros, e mesmo assim não foram capazes de distribuir remédios que custavam 12 cents em quantidade suficiente para evitar que crianças morressem de malária".
     Na Dot Org, Larry tornou-se o canal entre uma montanha de dinheiro e uma multidão de pobres e famintos. Atucanado, ele evoca sua experiência na Índia: Há quinhentos degraus entre a estrada e o Rio Ganges, pelo caminho todo você via a miséria - mendigos, pessoas morrendo de fome, leprosos. Digamos que tenha algumas moedas sobrando - como decide para quem dar? Uma pessoa que perdeu a mão merece mais do que outra que perdeu a perna? Alguém passando fome e à beira da morte, ou uma mãe com um filho doente?" 
Sobre a DotOrg., diz que "a idéia não é simplesmente dar dinheiro, mas também permitir que a Google invista em projetos que tenham potencial benéfico e dêem lucro ao mesmo tempo, podemos doar como uma fundação tradicional, investir em novas campanha e abrir algo nosso". 
O texto acima é uma leitura livre de uma entrevista que Larry Brilliant concedeu a Jeff Goodell na revista Rollingstone, edição 20, de maio de 2008,  foi traduzida para o português por J M Trevisan.
Encerro com a transcrição exata do último parágrafo:
Brilliant, com sua inabalável fé na vontade humana, permanece certo de que a DotOrg pode ser uma força para o bem. O que o preocupa atualmente não são as corporações inescrupulosas, e sim a intolerância religiosa. Afinal, para quem acredita que o amor é tudo o que precisamos, nada mais assustador que o ódio. "Costumava achar que o terrorismo era um vírus, e que o amor era a cura. O que me tira o sono é saber que os norte-americanos não entendem que há bondade em todas as religiões. O que me preocupa é que talvez não entendamos que estamos todos juntos nesta. Como iremos construir um lugar onde as pessoas se amem mais do que se odeiem?". 
No momento, Larry Brilliant se equilibra entre promessas feitas e promessas a serem cumpridas. Na conferência TED, Jeff Skoll, outro bilionário do eBay, trasnformado em filantro-empreendedor, se aproxima para falar sobre uma viagem recente em que os dois fizeram à Índia. Na noite seguinte haverá o jantar dos bilionários e no outro dia um jogo de golfe em Pebble Beach.
     Brilliant sabe das contradições existentes entre os vários mundos que habita, mas tem claro para si que ele próprio, como o modelo de filantropia que procura, é um tipo de híbrido - hippie e tecnológico, humanista e capitalista, otimista e realista. Quando pergunto se ele tem medo de ter vendido a alma em troca de um convite para o Baile dos Bilionários, ele se inclina de novo, quase sussurrando: "É como meu amigo Wavy diz: A arte da vida é colocar o pouco que você tem no lugar onde possa fazer a maior diferença."


Clicando aqui, o som da abertura http://youtu.be/1fqx2nB1feA

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