13 março 2010

Lapa, Cheiro de Moça, e Doce de Pimenta

Logo que cheguei em São Paulo iniciei um curso de canto em uma escola na Lapa. Quando saia da aula passava em frente a um bar que exalava churrasco, cerveja, perfume e suor. 
Personificava o desenho animado Disney dos anos cinqüenta: prédio dançante repleto de pequenas formas que se interpenetravam em exuberantes vestes, colorido figurino. 
A Lapa é sempre assim, povo, movimento, samba e pagode nos bares por onde eu, uma frau-keshmia, passa tropeçando, grudadinha na alça da bolsa, fazendo um baita esforço para não parar nas portas dos bares para assistir o encanto da pintura viva, um sonho de Kurosawa Brasilis. 
Numa padaria chique na região da Avenida Paulista, poderia, mas em um bar nas imediações do terminal de ônibus não devo. 
Na Lapa as pessoas se conhecem...comenta-se!
A Lapa-encanto, tudo custa quase nada no comércio da Rua Doze de Outubro, escolhi fazer minhas coisas por ali, até porque, lenta, evitando assim o desgosto de ser pisoteada por super-homens e super-mulheres noutros pontos. 
Nesta segunda-feira pintei ao vivo no Sarau do Tendal da Lapa. Eu não conhecia o espaço, estava indo confiante na dica do artista Juan Gajardo. Recém chegada em São Paulo, muito assustada com trânsito e de córneas recém transplantadas, com o carro abarrotado de quadros e cavaletes, dirigindo à noite na região dos armazéns antigos da Lapa...ainda por cima me faltando uma perna...ah, não as pernas estavam no lugar...
Na última hora comecei a me frouxar. 
Desisti! 
Depois, voltei atrás, 
então desisti novamente, depois voltei...bem...entrei no site do Tendal e peguei as orientações de como chegar lá.
O Tendal fica perto da Estação Ciência, a beira donde passa o trem, tem portaria com guardas, amplo e iluminado estacionamento, e é um espaço repleto da interferência artística dos que frequentam o lugar. Na segunda-feira o grupo de teatro do Tendal, encenava Ciganos - O Povo Invisível. 
Entrei pela porta dos fundos e vendo-os trabalhar, a determinação de pintar no sarau desapareceu. 
A peça que encenavam era um drama de amor e exclusão, encenada ao som do violinos e do lamento dum acordeom, à luz tremulante da fogueira no chão batido onde interpretavam, esqueci da vida, chorando escondida atrás dos óculos. 
Dali meia hora o diretor da peça mandou que parassem o espetáculo:
-Quem quiser ver mais, venha sexta-feira, que é a estréia! 
-Caramba! Era um ensaio...
O guarda me cutucou: O lugar onde a senhora vai pintar fica para lá, eu lhe levo. Fui atrás dele pensativa.
Caramba,era um ensaio!?
Lá dentro uma senhora declamava um acróstico de autoria dela, declarava seu amor pela Lapa, falava da rua Toneleros, pela qual também sou encantada. Depois, apresentou-se um senhor declamando uma poesia enaltecendo São Paulo, em estilo Adoniran Barbosa. E assim, um depois do outro, expuseram seus espíritos...informavam sobre o tempo em que se podia nadar no Tietê, para gente que nunca ouviu falar que tenha havido tal tempo.
Violeira de Mato Grosso, cantora portuguesa de Pirituba, artista plástico da Pompéia, cantando e tocando, contando causos do tempo em que trabalhou com o Lima Duarte e com o Armando Bógus...
Antes de sair de casa pedi a companhia do meu filho tatuador. No sarau, olhava para ele, o garoto durão, de queixo caído, enternecido com as peripécias da senhora de oitenta poucos anos, que no palco apresentava A Marvada Pinga, à capela. 
Para finalizar a noite o grupo musical Choro de Moça tocou. Presença de palco excelente, tocaram um lindo repertório incluindo Chiquinha Gonzaga e Plauto Cruz. Ficasse parado quem conseguisse! Corri ao carro e peguei meus badulaques. 
Ainda deu tempo de pintar o retrato das gurias do Choro de Moça. 
Na terça-feira seguinte, durante o almoço, o meu filho perguntou:- Hoje vamos dar uma chegada no Tendal novamente?

Nos links, a minha, a nossa Lapa, onde só não quero ser enterrada, pois dizem que tem escorpiões no cemitério:
 http://www.youtube.com/watch?v=SdVhuJG7ANE
E Rita Lee e Elis Regina, Doce de Pimenta:
http://www.youtube.com/watch?v=1n8R9xEy5LU

Um comentário:

Giane Pereira Soares disse...

Giane

Que delícia de crônica. Nasci na Lapa e na Lapa me criei...A maior parte de minha família morou na Lapa, no tempo em que era um bairro do operários, de pessoas de classe média, média. Havia a Lapa de baixo que era a parte do bairro localizada depois da linha do trem, ali as casa eram mais baratas e moravam as pessoas mais pobres, conforme você vinha subindo a Rua Doze de Outubro as casas iam melhorando de aparência e as famílias 'tinham mais posses', mas não me lembro de discriminações, lembro-me sim de subirmos a rua george Shmitd em direção à escola Anhanguera, todas as crianças com o mesmo uniforme, iam os filhos dos comerciantes, os filhos dos operários, do farmaceutico os pretos, os brancos e os orientais, eram tempos mais ricos quando não se falava tanto em igualdade social e racial e no entanto a praticávamos sem saber. A rua Doze de Outubro na época de Natal era uma festa toda iluminada, havia concurso entre as lojas pela decoração mais bonita e minha mãe com seus cinco filhos pra presentear, a percorria várias vezes de cima abaixo, comigo a tira-colo a procurar presentes para deixar debaixo da árvore de Natal. No Carnaval, ainda quando era bem pequena, meus pais e tios, levavam cadeiras para beira da calçada da rua Doze para ver o desfile das escolas de samba, tudo isso foi mudando em ritmo acelerado Sua crônica me trouxe à memória tardes deliciosas de caminhadas até as casas de minhas tias ( que já não estão mais por aqui faz tempo) de amigas de infância, enfim do bairro onde nasci....


Um grande abraço
Célia Regina Marinângelo