12 setembro 2012

Vertente


Eu posso falar daquele poço que meu pai limpava de três em três meses. Em silêncio.
Pegava as ferramentas, um balde, uma enxada e madeira para reforçar o bocal, e o fazia no domingo pela manhã -porque naquele dia ninguém vinha cedo buscar água. Eu dava pela falta dele e minha mãe já recomendava: não vão atrás incomodar. Então via as costas de meu pai através da janela da sala, indo rumo ao gengibral. Não perdíamos ele de vista, ativo, inquieto, sempre cheio de construções e novos plantios, mudas raras, bichos exóticos e tais novidades, era interessante a mais não poder. 
Mas a limpeza do poço não podia ser acompanhada de perto. 
-O Seu Basílio não desiste, exclamava a vó, a mãe não comentava, nada estranhava, tudo era sabido esperado e apoiado em sua alma gêmea. 
O poço era santo, dali brotava até nas piores secas água fresca, confiável e sanadora; da vertente que ficava no centro da gigantesca touceira  de gengibre. 
E não se trata aqui de ampliar a plantação pelo afastamento dos anos, que nadam vivos como se fosse hoje - bastando fechar um pouco os olhos - os minúsculos peixinhos que na valeta depois do poço brilhavam aos sóis. 
Ricas jóias da minha infância! Prateados e mais rápidos que a velocidade da luz ante a mão ansiosa da criança que sim, foi muito feliz capturando então os girinos - que seja - numa lata de leite Ninho e tratando-os com pastinho. 
-Mas e não é que estão crescendo?! Vão te escapar quando virarem sapos, disse uma vez, e à noite desconfio que largou meus anfíbios, embora eu tenha sem sucesso esquadrinhado milimetricamente o terrenão buscando pelos cadáveres das minhas criaturas para incriminar a suspeita: a vó, novamente e sempre ela, surpresa com essa parte de sua descendência; mas é evidente, já que visitava os outros filhos, os outros netos e comparava.
Quando chovia forte por muitos dias o mundo vinha abaixo: passava por nós. 
Depois disso o pai também limpava o poço que a enxurrada cobria e se tornava um triste sítio achatado, tapado de lama com os gengibres atolados até os joelhos (joelho de gengibre, elegante até assim). 
Para fustigar o orgulho zeloso de meu pai, nossos parentes diziam-lhe que aquilo não era poço, e sim uma vertente.  
Tínhamos água encanada, mas os outros... tínhamos paz e segurança em casa, mas minha família sempre recebeu os viajantes, alimentou os famintos e ajudou muitos a encontrar trabalho, e era ao meu pai que os familiares recorriam para julgar e equalizar as querelas entre pais e filhos, casais e acolher temporariamente filhos de algum lar desfeito. Ele, que teve mãe parteira.
Naqueles domingos após os churrasco em que alcool nunca foi acompanhamento, o tio provocava o pai: não é poço, é vertente!
-Se não é poço é por falta de vontade de eu cavar mais fundo, redarguia meu pai, e na indefinição da designação, ainda assim a água cristalina permanecia sã e cuidada para ser pega em garrafa, às vezes como remédio por alguns, como desejo repentino por outros: mandei fulaninha pegar, que me deu uma vontade e tinha que ser do seu poço; ele ficava muito feliz ouvindo e nunca quis contratar ninguém para fazer a limpeza da vertente, embora trabalhasse pesado durante a semana e volta e meia contratasse lavrador para arar as terras nas quais minha mãe eventualmente plantava melancias, melões  e pepinos entre o milho, mas mais que tudo cultivava calêndulas  para bonito!, e para espanto geral da vizinhança - liberdade com respaldo da alma gêmea, hoje sei: divertiam-se. 
Divertem-se ainda, e muito, só que hoje com outras excentricidades, que não o campo amarelo.
A vertente foi aterrada e o sítio foi loteado, mas eu nunca lhes contei.
Quando passo por uma fonte ou poço me emociono ao lembrar o valor que uma nascente tem para meu pai. 
Pela certeza que na água pura que esta Mãe Terra faz brotar de suas entranhas, está a cura para tudo.


Foto da fonte que a mãe 
tem em seu jardim atual.

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