15 abril 2012

O Pai

Três vezes iniciei este texto e...a calcinha do meu pai? Pois é. A calcinha do meu pai.
Sempre fez questão de que meu irmão menor e eu fizéssemos as lições de casa na mesa da cozinha, momentos agradáveis e inesquecíveis. Se pensava em nos vigiar nas tarefas, conseguiu instituir uma rotina que também me fez entender muito da relação que ele, o pai, e minha mãe sempre tiveram.
Eu ficava rabiscando e sentindo o movimento da casa, que sempre foi uma casa alegre, sem zumbidos de aflição.
Muito dada a monólogos minha casa de infância.
Meu pai trabalhava num serviço pesado e sujo, ao meio dia volta e meia chegava da labuta ansioso e tomava banho, trocava a roupa e voltava para se sujar na tarde, mas ao meio dia, de barriga cheia e cadernos já espalhados sobre a mesa, não uma ou duas vezes, ouvi ele discursar sobre a desordem reinante naquela casa onde a pessoa (ele) nunca conseguia saber se a roupa estava para lavar, secando ou para passar, mas era certo que nunca estava guardada no lugar.
-Afinal, Wil, onde está? Ele chamava minha mãe Hilda, de Wil, e exclamava e indagava sem eco sobre sua calcinha preferida que não estava a mão. Minha mãe, senhora do sítio, com três mil tarefas na agenda diária, nunca parou de fazer o que quer que estivesse a ordenar para procurar pelos trecos que ele haveria de encontrar sozinho, e pelas costas dele ela dizia: Já me basta ser escrava das vacas.
Sem levantar o olhar dos meus desenhos ouvia a cantilena da calcinha, sem dar importância quando era pequena, achava que era normal que homem e mulher usassem a mesma peça de vestuário íntimo, embora vendo no varal as calcinhas do meu pai, não entendesse porque ele usava tão feias e grandes, enquanto minha mãe e eu... bem, isso é história para outro pôr de sol...mas o assunto tornou-se extremamente divertido quando descobri que a tal peça para homens se chamava cueca. Minha mãe, um dia disse:
-Teu pai, acho que é daltônico.
Foi quando eu estava na quarta série e estudávamos este distúrbio ocular, cerebral, na leitura das cores. Já percebera a que se referia, mas para todos efeitos eu não sabia nada. Vivia estudando!
Dei de cara com ela num meio sorriso dos mais marotos quando levantei o olhar e perguntei por que ela achava. Respondeu:
-Pois não vê o assunto da calcinha dele?!
-Sim, mãe,  porque ele chama assim?
-Não sei, percebo que toda roupa que tem tecido leve ele usa o diminutivo pra designar, então no verão é calcinha e camisinha... Rimos
-Porque não explica que é horrível chamar assim?
–Nãão! Deixa ele em paz, iria ficar constrangido. Não faço isso com ele!
Mas meu irmão menor e eu fizemos, e assim usávamos em piadas e causos os termos de nosso pai, ele volta e meia nos surpreendia na chacota de seu linguajar.
Um dia tentou ficar bravo mas acabou desmontado num sorriso, finalmente deixou de chamar a calças de percal de calcinhas, mas continua dando o maior trabalho encontrar algo, quando ele insiste em descrever pelas cores, da forma que só ele as enxerga.



Texto sobre meu pai, já publiquei em janeiro de 2010, hoje o revi e achei graça nele, é mesmo assim, sempre soube porque escolhi estes dois como pai e mãe. Meu pai...a pessoa forte mais doce e braba que conheço, tanto faz se de calcinha verde ou marrom.
Foto de um destes verões, ele, Basílio.


Clique aqui, ou no título para ver o que garante a firmeza dos meus passos:  http://youtu.be/KuOr_1mkJBo

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