29 maio 2013

Mafalda - da primeira à última tira

O criador de Mafalda, Quino, deu uma entrevista para a Maruja Torres, que a Martins Fontes publicou. O livro "Toda Mafalda - da primeira à última tira", é uma edição lindamente encadernada com capa dura. 
Selecionei alguns trechos saborosos das declarações do genial desenhista argentino, autor das tiradas universais:
"Quando estou em casa, trabalho todos os dias. Mas no ano passado, com tantas viagens, não tive tempo de fazer quase nada. Mas é claro que ir a lugares novos, conhecer outras pessoas, deixa um sedimento que é útil para o futuro...Quanto à dificuldade, sim, criar é um processo difícil para mim, é um problema pessoal, sempre foi, com a Mafalda e com outro tipo de humor, Apago muito e implico muito.
...
Se não for apoiada por um bom desenho, a melhor ideia pode acabar se perdendo.
esta oposição entre texto e imagem foi um dos grandes traumas, já desde o início. eu achava que a ideia era primordial, e continuo achando, e isso me condicionava a desenhar. Por isso o fazia tão mal.
...
Desde pequeno estava muito claro para mim que eu ia ser ou desenhista ou nada. De modo que nunca tive dúvidas nem pensei em deixar o desenho para me dedicar a outra coisa. Os únicos problemas foram do tipo técnico, de corrigir erros.
...O que é mais importante para Quino?
Responde:
Não sei, não tenho ideia. A liberdade - ele insiste, teimoso. -Bem, posso acrescentar esse outro tipo de liberdade que a pessoa concede a si mesma, além daquela que tem de ser dada pelos outros. fico intrigado em ver que nos meus sonhos tenho uma imaginação fabulosa  e uma liberdade de movimentos que não tenho quando estou acordado. esse tipo de liberdade também é indispensável: a pessoa não deve se autobloquear com preconceitos e coisas que a inibem. 
Mas o autobloqueio existe, pelo menos no campo da criação. Quando desenho, eu me auto-censuro, porque, além do mais, já sei que se eu apresentar certas coisas nesta ou naquela revista elas não serão publicadas, então, para que perder tempo e energias? -Além disso é fácil fazer humorismo com coisas que beiram o censurável. é muito fácil meter-se com o militarismo ou com o clericalismo. Mas o importante é que a ideia seja boa, se for, o que importa que seja política, de humor negro ou de humor cor-de-rosa? A gente acha que nestas alturas já não cabe fazer a piada do naufrago na ilha, mas, se ela for boa, vai funcionar do mesmo jeito."

09 maio 2013

Todos os dias são das Mães



No início da semana fui pegar o presente para a mãe. Ao passar por uma loja na rua 25, vi na semana passada uma miniatura de máquina de costura com caixinha de música que toca Debussy: Clair de Lune: Será que ela vai gostar? Se o tempo é de vacas magras durma sobre a dúvida antes de comprar. 
Na segunda-feira voltei à região e com o coração apertado corri até a loja. Se não houvesse mais? Sabia agora que sim, que a mãe adoraria este pequeno mimo com muito carinho. Camille ontem o pôs no correio; e, mas então, voltando da loja passava pela Catedral da Sé. Subitamente fui pega pelo encantamento, estado de espírito que envolve feito cúpula. As pombas levantavam em revoada, as pessoas atarefadas preparando-se para engrenar um inverno, gentis sorriam. Alguns lugares fedendo a humanos que dormiram sujos por ali na noite anterior, substituindo humanos descartáveis dos anos anteriores, e o mundo passando. 
Sim, estou em São Paulo, e em alguns segundos voltei anos no tempo, até o final dos anos oitenta, na excursão que trouxe do rio Grande Sul, a turma do curso de Educação Artística da FIDENE, 
Inge e nós, suas alunas(eu, do atelier) com visita monitorada agendada para as catacumbas da Sé, 
Deixáramos o ônibus próximo ao Teatro Municipal onde curtíramos no meio-dia musical um espetáculo de violinos soberbo, e caminhávamos medrosos entre os pedintes e meninos portando bolsas plásticas cheirando cola, que puxavam nossas mangas pedindo esmolas. 
Muita coisa mudou e esse triste espetáculo já não é comum. Hoje moro em São Paulo, a Inge morreu, e aqueles dois filhos bebês que eu havia deixado no RS para vir estudar e conhecer São Paulo, Arte, Arquitetura, cresceram e estão casados e morando aqui. 
Um já me deu um neto.
Só quem não consegue enxergar é que se deprime ou é agressivo. 

Fotos: Maicon, meu filho mais velho, tatoo e editor de vídeo, com o meu neto Davi. Marcelo, incorporado em seu trabalho como aderecista e cosplayer, o Hellboy. Admiração de mãe e avó!

02 maio 2013

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley


...Vamos ouvir isso um pouco mais alto.
Na extremidade da sala, um alto-falante sobressaia da parede. O Diretor foi até ele e apertou o botão.
"...se vestem de verde", disse uma voz suave, mas bem nítida, começando no meio de uma frase, 'e as crianças Deltas se vestem de caqui. oh,não, não quero brincar com crianças Deltas. E os Ípsilons são ainda piores. São demasiado broncos para saberem ler e escrever. E, além disso se vestem de preto, que é uma cor horrível. Como sou feliz por ser Beta."
Houve uma pausa depois a voz recomeçou:
"As crianças Alfas vestem roupa cinzentas. Elas trabalham muito mais do que nós porque são formidavelmente inteligentes. Francamente estou contentíssimo de ser um Beta, porque não trabalho tanto. E, além disso,  nós somos muito superiores aos Gamas e aos Deltas. Os Gamas são broncos. Eles se vestem de verde e as crianças Deltas se vestem de caqui. Oh, não, não quero brincar com crianças Deltas. E os Ípsilons são ainda piores. São demasiado broncos para saberem..."
O Diretor repôs o interruptor na posição primitiva.
A voz calou-se. Apenas o seu tênue fantasma continuou a murmurar sob os oitenta travesseiros.
-Eles ouvirão isso repetido mais quarenta ou cinquenta vezes antes de acordarem; depois, outra vez na quinta-feira, e novamente no sábado. Cento e vinte vezes três vezes por semana durante trinta meses. Depois disso passarão a uma lição mais adiantada.
-A maior força moralizadora de todos os tempos.
Não exatamente como gotas de água, conquanto esta, na verdade, seja capaz de cavar buracos no granito mais duro; mas antes, como gotas de lacre derretido, gotas que aderem e se incorporam sobre aquilo que caem, até que, finalmente, a rocha não seja mais que uma rocha escarlate.
-Até que, finalmente, o espírito da criança seja essas coisas sugeridas, e que a soma dessas sugestões seja o espírito da criança. E não somente o espírito da criança. mas também o adulto por toda a vida. o espírito que julga, e deseja, e decide, constituído poer essas coisas sugeridas. Mas todas essas coisas sugeridas são aquelas que sugerimos nós! - O Diretor quase gritou, em seu triunfo. - Que o Estado sugere. 
...
Num pequeno espaço gramado entre altas moitas de urzes mediterrâneas, duas crianças, um garoto de cerca de sete anos e uma menina que poderia ter um ano a mais, dedicavam-se muito gravemente, com toda atenção concentrada de sábios absortos em algum trabalho de descoberta, num jogo sexual rudimentar.
- encantador, encantador - repetiu sentimentalmente o D I C.
-Encantador - concordaram os estudantes, por cortesia. mas seus sorrisos eram um tanto condescendentes. Fazia muito pouco tempo que eles tinham posto de lado os folguedos infantis desta natureza, para que pudessem contemplá-los agora sem uma certa dose de desprezo. Encantador? Mas era apenas uma dupla de fedelhos brincando, nada mais. Fedelhos, simplesmente.
-Sempre tenho a impressão...-continuou o Diretor no mesmo tom levemente piegas, quando foi interrompido por um vigoroso hu, hu, hu.
De uma moita próxima saiu uma babá puxando pela mão um garotinho que berrava, Uma menina seguia-os com ar inquieto.
-Que há? -perguntou o Diretor.
A babá deu de ombros.
-Nada de mais - respondeu - é simplesmente este menino que parece pouco disposto a tomar parte nos jogos eróticos de costume. Eu já o tinha observado antes, uma ou duas vezes. E hoje recomeçou. Agora mesmo se pôs a berrar...
- Palavra de honra - interrompeu a menina, apreensiva - eu não tinha a intenção de machucá-lo nem coisa parecida. Palavra de honra.
- está claro que não, minha querida - disse a babá em tom tranquilizador. - De modo que - recomeçou, dirigindo-se novamente ao D I C - vou levá-lo ao Superintendente Adjunto de Psicologia. Só para ver se ele não tem nada de anormal.
-Muito bem - disse o Diretor. - Leve-o ao superintendente. Tu vais ficar aqui, pequena - acrescentou, enquanto a babá se afastava com o menino, que continuava a chorar - Como te chamas?
-Polly Trotsky.
-É um nome muito bonito, sim senhora - tormou o Diretor. -Agora raspa-te e vai ver se encontras outro garoto para brincar contigo.
A criança saiu a correr entre as moitas e logo desapareceu.
-Que criaturinha graciosa! -disse o Diretor.
seguindo-a com os olhos. Depois dirigindo-se aos estudantes:
-O que vou lhes contar agora poderá parecer inacreditável. 
Mas é que, quando não se tem o hábito da História, os fatos relativos ao passado, em geral, parecem mesmo incríveis.
Revelou a espantosa verdade. durante um período muito longo antes de Nosso Ford, e até no decurso de algumas gerações ulteriores, os brinquedos eróticos entre as crianças eram considerados anormais (houve uma gargalhada); e não somente anormais, mas positivamente imorais (não!); e eram, portanto, rigorosamente reprimidos.
A fisionomia de seus ouvintes tomou uma expressão de incredulidade espantada. O quê? As pobres crianças não tinham o direito de se divertir? Não podiam acreditar.
-E até mesmo os adolescentes - dizia o D I C  -os adolescentes como os senhores...
- Não é possível!
-Salvo um pouco de erotismo e homossexualidade às escondidas...absolutamente nada.
Nada?
-Na maioria dos casos até terem mais de vinte anos.
Vinte anos? ecoaram os estudantes, num ruidosos coro de ceticismo.
-Vinte anos - repetiu o Diretor - eu os preveni que achariam isso incrível.
...
Duas crianças tostadas como camarões saíram de uma moita próxima, contemplaram-nos um instante com os olhos arregalados de admiração, depois voltaram aos seus brinquedos entre a folhagem.
-Lembrem-se todos - disse o Administrador, com sua voz forte e profunda - lembram-se todos, suponho, daquelas belas e inspiradas palavras de Nosso Ford:
"A História é uma farsa." A História -repetiu pausadamente - é uma farsa.
Agitou a mão; e dir-se-ia que, com um invisível espanador, sacudia um pouco da poeira, e a poeira era Harappa, era Ur na Caldéia, algumas teias de aranha, que eram Tebas e Babilônia, Cnossos e Miscenas. Uma espanada, depois outra  - e onde estava Ulisses, onde estava Jó, onde estavam Júpiter, Gotama e Jesus? Uma espanada - e essas manchas de lama antiga que se chamavam Atenas e Roma, Jerusalém e o império do Meio - todas haviam desaparecido. Uma espanada - o lugar onde era a Itália ficou vazio. Uma espanada, mais uma - aniquilados o Rei Lear e os pensamentos de Pascal. Uma espanada  - desaparecida a Paixão; outra - morto o Requiém; mais outra - acabada a Sinfonia; mais outra...
- É por isso que não lhes ensinam História - dizia o Administrador. - Mas agora é chegado o momento...
O DI C olhou-o nervoso. Corriam rumores estranhos acerca de velhos livros proibidos, ocultos num cofre-forte do gabinete do Administrador. Bíblias, poesia -só mesmo Ford sabe o quê.
Mustafá Mond interceptou seu olhar preocupado e as comissuras de seus lábios vermelhos contraíram-se ironicamente.
-Tranquilize-se, Diretor - disse em tom de leve mofa - não vou corrompê-los.
O DIC ficou tremendamente encabulado.

Aqueles que se sentem desprezados fazem bem em ostentar um ar de desprezo.

-Procurem compreender -disse e sua voz causou-lhes um frêmito estranho na região do diafragma. - Procurem compreender o que significava  ter uma mãe vivípara.
Novamente aquela palavra obscena. Mas dessa vez nenhum deles pensou em sorrir.
-Procurem imaginar o que significava "viver no seio da família".
Eles tentaram imaginar; mas, evidentemente sem nenhum êxito.
-E sabem o que era um "lar?
Abanaram a cabeça.
- o lar, a casa, algumas peças exíguas, onde se apinhavam, de maneira sufocante, um homem, uma mulher periodicamente prolífica, um bando de maninos e meninas de todas as idades. Falta de ar, falta de espaço; uma prisão insuficientemente esterilizada; a obscuridade, a doença, os cheiros.
(A evocação feita pelo Administrador era tão vívida que um dos rapazes, mais sensível que os outros, só com a descrição empalideceu e esteve a ponto de vomitar.)
E o lar era tão sórdido psiquicamente quanto fisicamente. Do ponto de vista psíquico era uma toca de coelhos, um monturo, aquecido pelos atritos da vida que nele se comprimia. Que intimidades sufocantes, que relacionamento perigoso, insensato, obsceno, entre os membros do grupo familiar! Insanamente, a mãe cuidava de seus filhos seus filhos)... cuidava deles como uma gata cuida de seus filhotes... mas como uma gata que falasse, uma gata que soubesse dizer e repetir uma e muitas vezes: "Meu filhinho, meu filhinho!..." E ainda: "Meu filhinho dorme, meu filhinho dorme com uma bolha de leite branco no canto da boca. Meu filhinho dorme..."
-Sim - disse Mustafá Mond, meneando a cabeça - é natural que os senhores estremeçam.
Nosso Ford - ou nosso Freud, como, por alguma razão inescrutável, preferia ser chamado sempre que se tratava de assuntos psicológicos - Nosso Freud foi o primeiro a revelar os perigos espantosos da vida familiar. O mundo estava cheio de pais - e, em consequência, cheio de aflição; cheio de mães - e, portanto, cheio de toda espécie de perversões, desde o sadismo atá a castidade; cheio de irmãos e irmãs, de tios e tias - cheio de loucura e suicídio.
...
Mães e pais, irmãos e irmãs. Mas havia também maridos, esposas, amantes. Havia também a monogamia e o romantismo.
-se bem que os senhores provavelmente não sabem o que venha a ser tudo isso - observou Mustafá Mond.
Eles sacudiram a cabeça.
A família, a monogamia, o romantismo. Em toda a parte o sentimento de exclusividade, em toda a parte a concentração do interesse, uma estreita canalização do impulso de energia.
-Mas cada um pertence a todos - concluiu, citando o princípio hipnopédico.
Os estudantes aprovaram com um sinal de cabeça manifestando vigorosamente sua concordância a uma afirmação que mais de sessenta e duas mil repetições lhes tinham feito aceitar, não apenas como verdadeira, mas como axiomática, evidente por si mesma, absolutamente indiscutível.

Extraído do livro admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, publicado pela Editora Globo de Porto Alegre em 1977. O autor escreve o prefácio da reedição de Admirável Mundo Novo: ...Hoje não sinto o menor desejo de demonstrar que a sanidade é impossível. Pelo contrário, embora  continue não menos tristemente certo que no passado de que a sanidade é um fenômeno bastante raro, estou convencido de que ela pode ser alcançada, e gostaria de vê-la mais difundida.
Por ter dito isso em diversos livros recentes e, acima de tudo, por ter compilado uma antologia do que disseram os sãos de espírito acerca da sanidade e de todos os meios pelos quais ela pode ser obtida, ouvi de um iminente crítico acadêmico a observação de que sou um triste sintoma do fracasso de uma classe intelectual em tempo de crise.
A interferência é, suponho, que o professor e seus colegas são alegres sintomas de êxito. Os benfeitores da humanidade merecem as honras e comemorações devidas. Construamos um Panteão para os professores. Deveria localizar-se entre as ruínas de uma das cidades destruídas da Europa ou do Japão, e acima da entrada se inscreveria, em letras de seis ou sete pés de altura, estas simples palavras: Consagrado à memória dos Educadores do Mundo. Si Monumentum Requiris Circunspice.
MAs voltando ao futuro, se eu reescrevesse o livro agora, ofereceria uma terceira alternativa ao Selvagem. entre as duas pontas do seu dilema, a utópica e a primitiva, estaria a possibilidade de alcançar a sanidade de espírito.




23 abril 2013

Tai-Pan

...Houve um ruído de vozes cadenciadas, e a porta se abriu com violência, deixando entrar, uma suja jovem Hoklo - a gente que vivia nos barcos - e um criado tentando segurá-la.  A mulher usava o grande chapéu cônico costumeiro, o sampana, calça e blusa negra e encardidas e, sobre elas, um também encardido colete acolchoado.
-Ninguém pudê pará esta vaca cria aqui, sinhô - disse o criado, numa corruptela de inglês falado na China, enquanto segurava a moça que lutava. Só através dessa corruptela os negociantes podiam conversar com seus criados e vice-versa. "Vaca" significava "mulher". E "cria" era uma variante de "criança". "Vaca cria" significava "jovem mulher".
-Vaca cria sai! E bem depressa, entendido? -disse Struan.
-Quer vaca cria, quer? Vaca cria é boa na cama, dois dólar tá bom - gritou a moça.
O criado agarrou-a e o chapéu dela caiu possibilitando a Struan ver seu rosto claramente pela primeira vez.
Ela quase não estava reconhecível, por causa da sujeira e ele morreu de rir.
O criado ficou boquiaberto diante dele, como se ele estivesse louco, e soltou a moça.
- Essa cria de vaca - disse Struan em meio às risadas -pode ficar, não se preocupe.
A moça limpou iradamente suas repugnantes roupas e  gritou outra torrente de insultos para o criado que partia.
-Vaca cria muito boa, você vê Tai-Pan.
-É você, May-may! -Struan olhou para ela - Que diabo está fazendo aqui, e qual o motivo de toda esta sujeira?
-Vaca cria acha que você está fazendo pim-pim com nova vaca cria, né?
-Pelo sangue de Cristo, garota, estamos sozinhos, agora! Pare de usar inglês pidgin! Gastei bastante tempo e dinheiro ensinando a você o inglês da Rainha!- Struan ergueu-a até onde os seus braços alcançaram. - Meu Deus, May-may, você está fedendo tanto que se sente à distância. 
-Você também fedê se usa estas roupas fedolentas!
-Federia, se usasse estas roupas fedorentas - ele disse corrigindo-a automaticamente. -O que está fazendo aqui, e qual o motivo de usar essas roupas fedorentas?
-Me bota no chão, Tai-Pan. - ele assim fez e ela se curvou com tristeza.
-Cheguei aqui em segredo e com grande tristeza pela sua perda da suprema senhora e de todas as crianças que ela teve, menos um filho. As lágrimas faziam sulcos na sujeira de seu rosto.- Sinto muito, sinto muito!
-Obrigado, garota. Sim. Mas agora já aconteceu e não há dor que possa trazê-los de volta. ele deu pancadinhas na cabeça da moça e acaricio-lhe o queixo, tocado por sua compaixão.
-Não conheço seus costumes, como devo me vestir em sinal de luto?
-Não ponha luto, May-may. Eles foram embora. Não adianta todo o pranto nem todo o luto.
-Queimei incenso para um perfeito renascimento.
-Obrigado. Agora, o que está fazendo aqui? E porque partiu de Macau? Eu lhe disse para ficar lá.
-Primeiro banho, depois mudar de roupa, depois conversar.
-Não temos roupas aqui, May-may.
-A tola da minha ama Ah Gip está lá embaixo, ela carrega roupas e minhas coisas, não se preocupe, onde é o banheiro?
Struan puxou a corda do sino, e, imediatamente apareceu o servo com os olhos arregalados. 
-Vaca cria quer banho, sabe? Ama pode fazer tudo. Pegue comida! - e depois para May-may -Diga que comida quer.
May may conversou com o criado boquiaberto, em tom imperioso e saiu.
Seu modo de caminhar oscilante jamais deixava de comover Struan. May may tivera os pés atados. eles tinham apenas três polegadas de comprimento. Quando Struan a comprara, há cinco anos, cortou as ataduras e ficou horrorizado com a deformidade que os antigos costumes tinham decretado ser um sinal essencial de beleza para uma moça - pés pequenos. só uma moça com pés pequenos - pés de lótus - poderia ser uma esposa ou uma concubina. As que tinham pés normais tornavam-se camponesas, criadas , prostitutas de baixa classe, amas e operárias, e eram desprezadas.
Os pés de May may eram aleijados. Sem o apertado envoltório das ataduras, a agonia que ela sentira causava pena. Então Struan permitiu que as ataduras fossem recolocadas, e, após um mês a dor já diminuíra e May may pudera andar outra vez. Só na velhice os pés atados se tornavam insensíveis à dor.
Struam perguntara-lhe então, usando Gordon Chen como intérprete, como aquilo fora feito. Contara-lhe, orgulhosamente, que sua mãe começara a atar seus pés quando ela tinha seis anos.
-As ataduras eram bandagens de duas polegadas de largura e doze de comprimento, e úmidas. Minha mãe amarrou-as com força em torno dos meus pés...em volta dos calcanhares e sobre o peito e planta dos pés, dobrando os quatro dedos menores por baixo da planta da sola e deixando livre o dedo grande. Quando as bandagens secavam e se apertavam, a dor era terrível. No curso dos meses e anos, o calcanhar se aproxima do dedo  e o peito se arqueia. Uma vez por semana, as bandagens são retiradas por alguns minutos e os pés lavados. Depois de alguns anos os dedos menores ficam encarquilhados e mortos, e são removidos. quando eu tinha quase doze anos, podia andar muito bem, mas meus pés ainda não eram suficientemente pequenos. Foi então que minha mãe consultou uma mulher entendida na arte de atar os pés. No dia do meu décimo segundo aniversário, a sábia mulher veio para nossa casa com uma faca aguçada e óleos. Ela fez um profundo corte com a faca na sola dos meus pés. Esse corte fundo permitiu que o calcanhar fosse empurrado para mais perto dos dedos, quando as bandagens foram recolocadas.
- Que crueldade! Pergunte a ela como suportou a dor.
Struan lembrava do seu olhar trocista quando Chen traduziu a pergunta e de como ela respondeu numa cadência encantadora.
- Ela diz: "Para cada par de pés atados, há um lago de lágrimas. Mas o que são as lágrimas e a dor! Agora não tenho vergonha de deixar ninguém medir meus pés." Ela quer que o senhor os meça Sr. Struan.
-Não vou fazer uma coisa dessas!
-Por favor, senhor. Isso a deixará muito orgulhosa. Eles são perfeitos dentro do estilo chinês, se não o fizer ela vai pensar que o senhor está envergonhado dela, perderá prestígio terrivelmente diante do senhor.
-Por quê?
-Acha que o senhor tirou as bandagens porque pensou que ela o estava enganando.
-Mas porque eu pensaria assim?
-Porque o senhor é...bom, ela não conhecia nenhum europeu, antes. Por favor, senhor, Só o orgulho que sentir por ela compensará todas as lágrimas.
Então ele medira seus pés e manifestara uma alegria que não sentia, e ela se prosternara diante dele três vezes. ele detestava ver homens e mulheres prosternando-se, com a testa a tocar o chão. Mas o costume antigo pedia este costume de obediência de um inferior a seu superior, e Struan não podia proibi-lo. se protestasse May may ficaria assustada outra vez e se sentiria embaraçada diante de Gordon Chen.
-Pergunte se seus pés estão doendo agora.
-Vão doer sempre, senhor, mas eu lhe garanto que ela sentiria muito mais dor se seus pés fossem grandes e feios.
May may então disse algo a Chen, e Struan reconheceu a palavra fan-quai, que significava "demônio bárbaro".
-Ela quer saber o que fazer par agradar um não chinês, disse Gordon.
-Diga a ela que os fan-quai não são diferentes dos chineses.
- Sim senhor.
- E lhe diga que você vai lhe ensinar inglês. Imediatamente. Diga-lhe que ninguém pode saber que ela pode falar inglês. Diante de outro deve falar só chinês, ou pidgin, que você também lhe ensinará.
Finalmente, você a protegerá com sua vida.

Extaído do Livro de James Clavell, Tai-Pan, publicado no Brasil pela Editora Record

Foto: Escultura que fiz em cerâmica no ano de 2005.
Está com colecionadores de Brasília.

14 abril 2013

Metanóia, Yogaterapia e a Despacientização: Prof° Hermógenes


Entrevista concedida pelo professor Hermógenes ao Pedro Kupter da Revista Yoga, na época do lançamento de seu livro Saúde Plena: Yogaterapia. Transcrevo aqui alguns trechos da entrevista publicada na revista n° 08 - Ano l pela editora Escala.

*Por que a Yogaterapia é ideal?
Prof° Hermógenes: A experiência deste método está no seguinte: não é propriamente um tratamento, e sim um treinamento, e isso faz uma grande diferença. Num tratamento supõe-se uma dualidade - de uma lado o terapeuta (ou médico) e do outro o paciente. A palavra paciente indica que alguém está recebendo passivamente, sem nada fazer, nem dar. Na Yogaterapia, não existe a figura do paciente, pois cada um deve desenvolver um treinamento sobre si mesmo, sendo simultaneamente terapeuta e atuante. ambos são um só, e assim, despacientiza-se a medicina.

*Quais seriam as consequências?
Prof° Hermógenes: Há imensas e boas consequências. Primeiramente gera uma coisa preciosa: a autoconfiança, acabando com a dependência de medicamentos, massagens, agulhas, práticas aplicadas por outrem em você...
A Yogaterapia é o treinamento do homem-todo, um treinamento multifrontal. Mas há uma série de coisas a fazer para dar ao corpo as melhores condições de performance e duração de bem-estar. Trata-se de um trabalho sobre o físico, o energético, sobre as emoções (sentimentos, sensualidade), sobre os pensamentos e um trabalho em busca da união com o Logos, com Deus. Isso tudo realiza-se simultaneamente, sinergicamente: a ação unificada de todos esses níveis do ser.

*Num de seus livros, o senhor diz que Satã é sinônimo de sectarismo. O ecumenismo daria o tom desta Nova Era?
Prof° Hermógenes: A palavra ecumenismo já tem sofrido certas distorções e prefiro dizer "universalismo". No Brasil quando se fala de uma festa ecumênica, imagino um padre, um pastor e um rabino dizendo: "como é bom o ecumenismo, já que não entrou nenhum espírita aqui". Não gosto desse ecumenismo, pois nele ainda existe uma participação daquela chamada tolerância religiosa. O sujeito, julgando-se superior, tem a "caridade" de "tolerar" os "erros religiosos" dos demais.
Também a tolerância religiosa é um tipo de egosclerose. eu devo amar a religião do outro e se o outro estiver amando uma Forma e um Nome de Deus que não correspondem aos meus, tenho a obrigação e o desejo de amar a Deus na Forma e com o Nome que ele concebeu. 
A isso chamo inclusivismo universalista.

*Segundo o senhor, há dependentes de drogas, afeto, sucesso e sexo, e estes seriam os escravos modernos. Como abolir esta escravidão?
Prof° Hermógenes: Através da humildação. atrás de tudo isso está o ego querendo poder, prazer e procurando o status. O resultado é essa desgraçeira toda, nos outros e nele próprio. A dependência é o império do ego.

*O senhor observa que no prazer há um risco de perdição e que a dor seria um caminho de evolução. Não haveria um risco de culto ao sofrimento, como já houve em certa fase cristã?
Prof° Hermógenes: Claro que sim. Há o risco do masoquismo, e é por isso que nos meus livros faço tantos alertas. É preciso lutar com todas as forças que você tem, mas quando todas as forças falharem e a dor envolver você, aceite a dor. Entregue seu sofrimento a Deus. e não espere alívio Dele. espere o que ele mandar. O esforço do Yoga da sabedoria é vencer a ignorância, para que você se deslumbre e se liberte ao descobrir aquilo que você é, que é Deus. Nós somos Deuses, Somos a Divindade.

*Para o senhor, Deus é essencialmente bom e o aspecto negativo da ação cósmica ficaria por conta da Lei do Karma. Não haveria mal em Deus? Satã não pertence ao corpo da Divindade?
Prof° Hermógenes: Pertence, Satã também é Deus, mas é o aspecto contrário criado por nós.
Satã é resultado da nossa ignorância. é o corrupto, o pistoleiro, o que massacra crianças, é aquele que força uma jovem desamparada...Mas esse também é Deus. o pior dos facínoras só aparentemente é facínora, porque, na essência, ele é Deus. É duro entender isso, mas como nos traz alívio e a possibilidade de amar e solucionar as coisas.

*Como sair dos atuais impasses?
Prof° Hermógenes: Para que não haja o caminho de volta, é preciso atingir um ponto de sofrimento maior, o ponto de mutação, e a humanidade está passando por isso agora. tudo está se esboroando. Não só no Brasil. Estamos na hora da agonia. Já vivemos a hecatombe...não é necessário uma onda de 60 metros. Mas a própria juventude já sente dentro de si uma convocação para algo diferente. As drogas levaram à servidão, o sexo selvagem resultou em AIDS...Está na hora da humanidade despertar para o caminho de volta.
Estamos assistindo a um fenômeno que os gregos denominaram metanóia, ou seja, a mudança da mente.
Isso já está ocorrendo.
Estamos saindo das trevas e há muita manifestação de amor nesta hora. Espero que essa entrevista toque o coração de muita gente, e que eles posam fazer sua metanóia, voltando-se para Deus, pois Ele ainda está de braços abertos.
"A yogaterapia restabelece o equilíbrio psicofísico e energético, através de exercícios em que as técnicas do yoga são aplicadas de modo especificamente terapêuticos caso a caso, de acordo com uma prévia avaliação. O terapeuta avaliará, dependendo da desordem apresentada, a condição física, psicológica e energética da pessoa, elaborando assim um programa que leva a recuperação da saúde e trazendo uma melhor condição de vida à pessoa, Além de asanas (posturas) pranayanas, relaxamento e meditação adequados a cada indivíduo e sua problemática, a Yogaterapia orienta também quanto à alimentação." Bernardo Horta

Fotos: Manu, minha sobrinha, filha de Luciana, nesta páscoa. Abaixo: meu neto, Davi e meu caçula, Joseph.

02 abril 2013

Sobre os Diletantes





"...ainda hoje todo o pesquisador luta entre os fogos cruzados do público e do mundo especializado. Os relatos de Schliermann tinham um público diferente dos das Circulares de Winckelmann. O homem mundano do século XVIII escrevera para as pessoas cultas, para o pequeno círculo dos preferidos, para os que possuíam museu, ou, pelo menos, obtinham acesso a eles porque pertenciam ao mundo de uma corte. Esse pequeno mundo foi sacudido pela descoberta de Pompéia, ficava encantado com a escavação de uma só estátua, mas o seu interesse nunca ultrapassava o ambiente restrito do estético-artístico. A influência de Winckelmann foi penetrante, mas precisava do veículo dos poetas e escritores para irradiar da estreita zona da cultura toda a profundeza e largura do seu tempo.
Schliemann influía diretamente, sem intermediários, dava publicidade a cada nova descoberta, e ele próprio era o que mais se maravilhava diante dessas descobertas. Suas cartas corriam o mundo inteiro e os seus artigos apareciam em todos os jornais. Scliemann teria sido homem de rádio, do cinema, da televisão se já existissem na época. suas descobertas em Tróia provocaram um torvelinho não só no restrito mundo da gente culta, mas em toda parte. As descrições de estátuas por Winckelmann haviam interessado aos estetas e encantado os entendidos. As descobertas de ouro de Schliemann interessavam a homens de uma época que na sua terra se chamava "época dos pioneiros", homens que vogavam sobre a maré da prosperidade econômica, que apreciavam o "self-made man", que possuíam bom senso e se colocavam ao seu lado quando os "puros cientistas" voltavam as costas aos "leigos".
Um diretor de museu alguns anos depois das reportagens de Scliemann de 1873, escreveu: "Na época dessas reportagens reinava grande excitação tanto entre os eruditos como entre o público. Em toda parte, em casa e nas ruas, nas diligências e nos vagões de estrada de ferro, se falava em Tróia. Todo mundo estava cheio de espanto e interrogações".
Se Wickelmann, como diz Herder, "apontara de longe o segredo dos gregos", Schliemann já havia desvendado a sua pré-história. Com incrível arrojo havia tirado a Arqueologia da luz do petróleo dos gabinetes de estudo para a luz do sol de um céu helênico e resolvido a questão de Tróia com a pá. Rompendo o circulo da filologia clássica, dera um passo para o interior da pré-história viva e alargara uma ciência clássica em torno da pré-história.
A rapidez com que foram tomadas estas medidas revolucionárias, a acumulação dos resultados, a personalidade dúbia de Schliemann, não de todo comerciante, não de todo erudito, e, não obstante, ambas as coisas com extraordinário êxito, o "feitio publicitário" de suas publicações chocaram o mundo internacional dos sábios, e entre eles, particularmente, os alemães.
A extensão da revolta pode ser avaliada pelo número de 90 publicações sobre Tróia e Homero, que, nesses anosa das atividades de Schliemann, saíram rapidamente dos gabinetes de estudo. O principal ponto de ataque contra o qual os eruditos assestavam suas baterias era o diletantismo de Schliemann.
No decorrer da história das escavações sempre encontraremos novamente os arqueólogos profissionais a amargurara a vida daqueles que apenas estavam dando o impulso para o novo salto no escuro.
Visto os ataques a Schliemann serem  de importância básica, aqui vão algumas palavras e citações de shopenhauer:
-Diletantes, diletantes! Tais são os que praticam uma ciência ou arte por amor a ela ou por prazer nela, 'per il loro diretto'; assim são chamados por desprezo por aqueles que a ela se dedicaram por amor ao lucro, porque a eles só deleita o dinheiro que possam ganhar com isso. Esse menosprezo baseia-se na sua infame convicção de que ninguém se dedicará seriamente a uma coisa quando a isso não o estimule, a necessidade, a fome ou qualquer outra cobiça. O público é desse mesmo espírito e, por isso, dessa mesma opinião: dai nasce seu absoluto respeito pelos 'homens de especialidade' e sua desconfiança dos diletantes. 
Na verdade, para o diletante, a causa é o objetivo, ao passo que para o especialista, como tal, é apenas um meio; mas só se dedicará a uma causa com toda seriedade aquele que por ela se interessar imediatamente e se ocupar dela com amor, praticando-a con amore'. Desses tais, e não dos servos do salário, sempre partirão as maiores coisas.
O Prf. Wilhelm Dörpfeld, colaborador, conselheiro e amigo de Schliemann, um dos poucos especialistas que a Alemanha colocou ao seu lado, escreveu ainda em 1932: Contudo, nunca compreendeu a zombaria com que vários eruditos, e especialmente muitos filólogos alemães, acompanhavam os seus trabalhos em Tróia e em Ítaca. eu mesmo sempre lastimei esse escárnio com que alguns grandes sábios, mais tarde, contemplaram também minhas escavações em lugares homéricos, e o considerei não só injustificado mas também anticientífico!
A desconfiança do "especialista" pelo "outsider" bem sucedido é a desconfiança do burguês pelo gênio. O homem de carreira assegurada despreza o pesquisador de zonas inseguras e que não faz disso meio de vida. esse desprezo é injusto.
Por mais longe que remontemos à pesquisa científica, não é difícil verificar que um número extraordinário de descobertas foi feito pelos "diletantes", ou até, "autodidatas" que, levados pela obsessão de uma ideia, não sentiram o freio de uma formação especializada., as vendas do especialismo, e saltaram por cima das barreiras erguidas pela tradição acadêmica.
Otto Von Guericke, o maior físico alemão do século XVII, era jurista de profissão.
Benjamin Franklin, filho de um modesto fabricante de sabão, tornou-se, mesmo sem formação ginasial e universitária, não só um político ativo (para o que podem bastar algumas qualidades menos importantes), mas mas também um sábio de valor.
Galvani, o descobridor da eletricidade, era médico e, segundo prova Wilhelm Ostwald em sua "História da Eletroquímica", deveu sua descoberta justamente a deficiência de seus conhecimentos. Fraunhofer, autor de eminentes trabalhos sobre o espectro, até aos 14 anos não sabia ler nem escrever. Michael Faraday, um dos mais importantes naturalistas, era filho de um ferrador de cavalos e começou como encadernador. Julius Robert Mayer, descobridor da lei da conservação da energia, era médico. Também era médico Helmholtz, quando, aos vinte e seis anos, publicou seu primeiro trabalho sobre este mesmo assunto.
As obras mais notáveis de Buffon, matemático e físico, tratam de geologia.O homem que construiu o primeiro telégrafo elétrico foi o professor de anatomia Thomas Sömmering. Samuel Morse era pintor, assim como Taguerre. O primeiro criou o alfabeto telgráfico, o  segundo inventou a fotografia. Os obcecados criadores do aerostato dirigível Zeppelin, Gross  e Parseval, eram oficiais e não tinham nenhuma ideia sobre técnica.
A lista é infinita. Se se afastassem estes homens da história das ciências, toda a sua estrutura desabaria. E, contudo, no seu tempo tiveram de suportar zombaria e escárnio.
A lista prossegue na história da ciência que aqui tratamos. William Jones, que forneceu as primeira boas traduções do sânscrito, não era orientalista e sim relator-chefe em Bengala. Grotefend, o primeiro decifrador de uma escrita cuneiforme, era filólogo clássico. Seu sucessor, Rawlinson era oficial e político.  Os primeiros passos no longo caminho da decifração dos hieróglifos, deu-os Thomas Young, médico, e Champolion, que chegou à meta, era realmente professor de história. Humann, que desenterrou Pérgamo, era engenheiro de estrada de ferro.
Basta esta lista para o que deve ser dito aqui? 
Não se pode especificar claramente tudo aquilo que distingue um especialista. Mas o que importa não é o resultado, desde que os meios sejam limpos?
Não merece os "outsider" a nossa especial gratidão?
Sim, Schliemann cometeu graves erros nas primeiras escavações. demoliu antigas construções que eram preciosas, destruiu muralhas que teriam sido indícios importantes. contudo, o grande historiador alemão E. Mayer concedeu-lhe isto: Para a ciência ficou demonstrado ter sido altamente benéfico o procedimento não metódico de Schliemann no sentido de ir direto ao solo primitivo. Numa escavação sistemática dificilmente teriam sido descobertas as camadas mais antigas da colina e, com isso,  essa cultura que designamos como a propriamente "troiana".
Foi uma trágica fatalidade o fato de terem sido erradas quase todas as suas primeiras interpretações e datas. Mas Colombo, quando descobriu a América, julgou ter encontrado a Índia. Acaso isso diminui o seu feito?



Extraído do livro Deuses Túmulos e Sábios, 
de C W Ceram, publicado  pelo Círculo do Livro

Foto: Rosa no jardim do meu prédio.






29 março 2013

Sexta-Feira Santa

A semana especial, Santa pelo inexorável magnetismo que faz com que tudo que tenha que ser, seja, transcorre ouriçada nestes dias de definições abertas em que a transparência pode não ser a mola propulsora, o ambiente, o impulso inicial, mas é o fecho para todo e qualquer movimento, atitude, negociação. 
Os ramos estendidos ao chão do domingo passado, carregados no peito pelos humildes, agitam o pó e ao invés das habituais pátinas perpetradas nas celebrações de antigamente, hoje agitam energias centrífugas mais potentes que os incontroláveis eventos atômicos depois de deflagrados.
Homem, para onde vais?
Criança, em quem crês?
Mulher, onde colocas tua força?
No corredor espelhado a besta tangida movimenta-se a passo sonambular despertada por aquele compasso, a linha pontilhada. Galga a estrada murada da moderna Babilônia, interpenetrando-se com a manada adestrada para tal. 
Para seguir sem saber o quê nem para quê, mas com a força emprestada da energia  invocada a mantras primais, 
a coitos animais, 
a vertidas linhas sangrentas, segue o passo potente o  grupo autômato que está entregue ao livre arbítrio, mas livre arbítrio de quem, se os que palmilham o rumo do sacrifício, estão entregues, massa material sem direção espiritual. Manipuláveis vampiros e  vampirizáveis.
Ainda e sempre os anjos humanos no alvo dos  animais vorazes. Tanto faz se vão em frente, ou atrás, sobre...tanto faz!
Só sendo vidente para evitar o choque com os desgovernados em curto circuito, que nem mais sinal de seta dão. Autômatos, drogados, puxados por cordões invisíveis, carregando no ventre a possibilidade da libertação, que ao invés de fruto do ventre, alumbra como ação fisiológica, devorada que foi na nascente, pela inconsequência; não escolhem. Dementes, guinam, chamam a isso "viver a vida", e derrapam fugindo a qualquer lógica do movimento divino. Viciados deflagram desastres. Previstos desastres...
Presente e acessível ainda está a aérea Boa Nova, ramagem da altura da videira, palpitando vibração de cura, latejando solução de Amor, retida sob as amareladas folhas outonais. Quer brotar, mas permanece maturando pela falta de atenção dos jardineiros que todos somos.
"Um elefante passava toda a tarde sobre o formigueiro e o pisoteava e destruía. As formigas se punham a trabalhar e o reconstruíam, noutro dia lá vinha o proboscídeo com seu andar pesado e acabava com o ninho novamente. 
As formigas restantes, fartas daquilo resolveram eliminar o mastodonte moderno, subiram todas na árvore, e quando ele passou se jogaram sobre o rugoso lombo. O elefante sentido o comichão, chacoalhou-se e foram todas ao chão. Menos uma. As que caíram, então gritaram com suas vozezinhas agudas e irritadas:
- Esgoela ele!"



06 março 2013

Te convido a visitar

Até o dia 17 de março exponho meu trabalho em telas  na Loja Rosacruz AMORC em São Paulo. A exposição começou a acontecer após o convite formulado pela Léa Meirelles, artista plástica responsável pelo excelente espaço expositório da Loja. Apresento minha produção recente de forma individual. São meus sonhos, memórias de outras vidas e viagens astrais que retratados em óleo são realmente uma grande auto-exposição. Cada obra está acompanhada de um memorial descritivo, o que vai contra a orientação geral das exposições contemporâneas, mas esta é uma exposição diferente, aqui está em público o garimpo mais íntimo de imagens que recebo da espiritualidade, que contextualizadas abrem portas para o visitante encontrar a parte que lhe cabe neste latifúndio de memórias, vivências e desdobramentos.
E vamos nos reencontrando, 
intercambiando 
e juntando as peças deste que pretenciosamente quer ser um momento para ampliar a abertura mental, não para quebrar a cabeça, daí os memoriais descritivos, como não gostaria de ver meu ex professor de Preparação e Organização Profissional do artista Plástico, o José Francisco Alves. 
Destoando, sigo o artista plástico contemporâneo que mais admiro, Julien Friedler, que com seu projeto minimalista mapeia o mudo através das sensibilidades cadastradas com o Spirit of Boz:
"Tudo se misturava:épocas, espelhos, instantes responsáveis, corpos de uns e de outros, rostos crucificados e boas-vontades perdidas. Deste Caos tentamos no entanto extrair a medula substantiva. (Le livre du Boz - Julien Friedler - www.spiritofboz.org).
Na minha exposição não há minimalismos, há excessos, há tempos que se cruzam, há muita informação, é um caos de imagens; estive no subterrâneo de um convento por muito tempo, subi aquela encosta noutro continente, estive em um veículo não identificado, vi o Sol como ancoradouro... a exposição é um bordado, na abertura alguns visitantes teceram mais pontos. 
E tu? Vai lá? Estarei monitorando e pintando ao vivo, sugestão do Mestre Pedro Edson Gianfré, que oportunizou e apoia esta mostra. Na foto, o Mestre Gianfré, Joseph e Léa Meirelles no sábado último.

Horários para a visitação:
Terças, Quartas e Sextas: das 19h30 às 22h
Sábados: das 13h30 às 18h
Domingos: das 8h30 às 12h.

Rua Borges Lagoa, 1345 – Vila Clementino – São Paulo SP. Mais informações, fone: 0XX 11 5549 0012

01 fevereiro 2013

Catálogo Ordem Rosacruz - Janeiro Fevereiro e Março

Boletim Informativo da Loja Rosacruz São Paulo - AMORC, n° 241 - 2013 - Ano 66 - ano R§ C 3365
Giane Pereira Soares 02 à 17 de março:
"A artista Giane Pereira Soares ama a vida, ama representar a figura humana através das suas técnicas, diz que dar a vida ao olhar e à expressão das mãos é o que mais gosta de fazer. Pinta paisagens e há alguns anos, em decorrência de sua entrega na busca do auto-conhecimento espiritual e aceitação da sua senda, sua produção principal vem sendo a pintura em estilo surreal; expressa em seus trabalhos suas vivências de vidas passadas, seus sonhos vívidos, insights, deja vus.
Traz na bagagem a experiência de pintar em grandes superfícies. Da experiência escultórica com ferro, argila e recicláveis, passa para a criação e execução de adereços e pintura de cenários para teatro, filmes e comerciais. Para esta exposição a artista prepara uma panorâmica das viagens astrais, o passado remoto, o presente e o futuro interagindo no Portal da Quinta Dimensão."

Todos os dias, no horário do funcionamento da Loja.
informação no Boletim, pág. 19