18 maio 2010

Carta 1 - Apostila

Escultura que fiz em 2009 - A coruja da Denise com Camille no ventre.
...Talvez, amigo Cristobal, nossa cultura e educação contemporânea tenham como resultado mais evidente a formção de indivíduos auto-suficientes. E talvez os vitoriosos neste sistema criem e tenham reforçada a imagem que não condiz com a realidade da vocação de seres gregários e animicamente carentes que temos, o pobre vivente tem tudo para ser, mas não é, e em conflito é agressivo. Acho que um bom tanto do conflito do ser desenganado pós moderno esta aí. É minha mãe que diz, ela diz que nem é para tentar esta bobagem de viver sozinho, que vira só em tristeza, rs,rs,rs...E me diga, mudando de assunto, o que achas? Quando eu era menina, tinha uns nove anos, na escola em que estudava distribuíram uma cartilha cujo título era “Nossa Ilha”, não era um livro como os que o governo distribuía, era uma cartilha do mesmo tamanho, mas não tinha capa dura e a impressão era colorida berrante como um show de bandeirinhas de festa de São João. A cartilha era para ser nosso livro de estudos daquele ano, contava a história de um lugar onde os personagens viviam com um sorriso arregaçado no rosto e cada um era dono de uma banca de determinado produto que ele mesmo produzia. Ali tudo de trocava e não havia moeda. Eu era pequena e adorei a idéia, mostrava toda noite para meus pais a evolução dos exercícios no comercio da Nossa Ilha. Um dia a diretora da escola entrou na sala de aula e recolheu a cartilha de todos que tinham levado, parecia que estava de luto, ou não sei o quê, mas estava de cara feia e havia uma sombra cobrindo a escola. A minha cartilha se salvou, havia deixado em casa e como eu já era admiradora de cores vibrantes, pensei:me salvei, salvei minha linda cartilha cheia de boas idéias e lindas figuras. Mas que, nada! Me levaram para secretaria e queriam que eu fosse em casa com um militar, um rapaz sério, buscá-la, vibrou uma conversa de adulto naquela sala, que não guardei pois não entendi. No final ficou assim, me deram uma cartinha e no dia seguinte que eu apresentasse a cartilha na entrada da escola. Dito e feito, entreguei a cartinha aos meus pais, tranqüila de que eles me ajudariam a salvar minha obra de arte preferida, mas nem piscaram, foi a primeira vez que os vi de acordo com algo que receberam escrito num papel da escola.
Ative o link ou clique no título para ouvir Touinho - Caderno
http://www.youtube.com/watch?v=INPFl4u3Lrw
Edson Weslenn comentou em17 de maio de 2010 23:37
Eu perdi um livro que adorava, desde então procuro ler
o suficiente pra chegar no nível de magia que aquilo livro tinha.

4 comentários:

Edson Weslenn disse...

Eu perdi um livro que adorava,desde então procuro ler o suficiente pra chegar no nível de magia que aquilo livro tinha.

HELENA disse...

Nossa eu pensava que so eu lembrava dessa cartilha, já estava querendo crer que era fruto da minha imaginação. Helena

Lisângelo Berti disse...

Lembro muito bem dessa cartilha, mas não sabia que havia sido recolhida. Até porque ensinava principios da economia e ate do imposto de renda. Não lembro de nada 'comunista' nela... Anos mais tarde veio outra 'Vamos Construir Juntos' mas não era bacana como a 'Nossa Ilha'.

jlscopel43 disse...

Que coisa ontem dia 01 de agosto pegando a rodovia com destino a Cascavel lembrei da Cartilha Nossa Ilha que estudei numa escola da Igreja Católica e sempre achei ela com um viés comunista (sou presidente do PCdoB em minha cidade) e até me surprendi ao lembrar de que onde eu estudava era uma cidade com militares no poder... era uma grande obra ainda mas por ser em meados da década de 1970.