14 agosto 2014

Rollo May - a Coragem de Criar. Eu digo, é preciso coragem para dizer não, mas compensa.

Uma sociedade cruel que devora seus artistas, um meio artístico em que a conduta de moral elevada e ética impedem o sucesso se não forem camufladas, um comércio de escravas, em que a anorexia imposta como padrão de beleza destrói emocionalmente as mulheres, um meio em que a concorrência desleal jamais é punida, matou tanto a Heath Ledger, quanto a Robin Williams, e andam com o pescoço na auto guilhotina aquela mais famosa atriz, aquele tão charmosos galã, perdido no labirinto calçado na fama cercado pelos falsos amigos exploradores...
Carrego sempre comigo o livro A Coragem de Criar, do psicanalista americano, professore e teólogo, Rollo May, que me ampara sempre que sou cobrada a passar dos limites positivos e construtivos no meu fazer artístico, profissional. E ultrapassar os meus limites espiritual, emocional e físico é um risco constante, combinado a vida familiar, de ser social, que sou. Preciso de amparo quando tenho que declarar: "daqui não passo", pois se não me respeitas, eu me valorizo. Eu não tenho a pretensão de ser modelar, mas ambiciono viver plenamente, ou em algumas temporadas mais cruéis, ao menos sobreviver para ver o que vem depois, para vibrar nesta benção divina que é a vida. 
Rollo May? Recomendo aos que de vez em quando se sentem sós.

"Um eminente professor de Nova Iorque conta o seguinte: procurava há algum tempo uma fórmula química, sem sucesso.
Uma noite viu em sonho a fórmula completa, acordou e escreveu-a apressadamente na única coisa que encontrou, um lenço de papel. Porém, na manhã seguinte não conseguiu ler o que escrevera. Depois disso, todas as noites antes de se deitar, concentrava suas esperanças na repetição do sonho, Felizmente, algum tempo depois sonhou novamente com a fórmula, e desta vez a escreveu com toda clareza, era exatamente o que procurava, e com ela ganhou o prêmio Nobel.
todos nós já passamos por experiências semelhantes, embora não com os mesmos resultados finais. Os processos de dar forma, fazer, construir, continuam em nossa mente, mesmo quando não temos consciência deles. William James, disse certa vez que aprendemos a nadar no inverno  e a patinar no gelo no verão. De qualquer modo que interpretemos estes fenômenos, em termos de uma formulação do inconsciente ou, segundo William James, como algo ligado aos processos neurológicos, que continua, mesmo quando não pensamos neles; ou ainda, segundo a abordagem que adoto, é sempre óbvio que a criatividade continua, com vários graus de intensidade, a níveis não controlados diretamente pela vontade. Portanto, o aumento da percepção a que nos referimos não significa um aumento do conhecimento consciente. Está mais ligado ao abandono e à absorção e implica o aumento perceptivo de toda a personalidade.
Queremos, porém, acentuar que o discernimento consciente, ou a resolução de problemas que nos vêm em devaneios ou sonhos não são produtos do acaso. É certo que podem ocorrer em momentos de repouso, ou em meio a fantasia, ou quando alternamos o trabalho com o lazer.
Mas deve ficar bem claro que pertencem às áreas nas quais trabalhamos com afinco e dedicação. A determinação é um fenômeno muito mais complexo do que a força de vontade, como a chamamos. Determinação implica todos os níveis da experiência. Não podemos usar a força volitiva para conseguirmos uma percepção exata de alguma coisa. Não podemos querer a criatividade.
Mas podemos usar a vontade para conseguir o encontro, intensificando a dedicação e o compromisso. A ativação dos aspectos mais profundos da percepção relaciona-se diretamente com o grau de compromisso da pessoa com o encontro.
Acentuamos também que essa "intensidade do encontro" não deve ser confundida com o chamado aspecto dionisíaco da criatividade. É um termo muito usado nos trabalhos sobre o assunto. Tem origem no nome do deus grego da embriaguez e de outras formas de êxtase, significa a excitação súbita da vitalidade e o abandono que caracterizavam as orgias de Dionísio. Nietzsche, na sua importante obra A Origem da Tragédia, cita o princípio dionisíaco como a excitação súbita da vitalidade, e o princípio apolíneo como a forma e a ordem racional. Coloca-os como os dois polos opostos que operam na criatividade. Essa dicotomia é aceita por muitos estudiosos e escritores. O aspecto dionisíaco de intensidade pode ser facilmente estudado pela psicanálise. provavelmente quase todos os artistas já tentaram trabalhar sob a influência do alcool. O que acontece, na maioria das vezes, e o que se podia esperar, e depende da quantidade ingerida - isto é, o artista pensa estra fazendo um trabalho maravilhoso, melhor do que todos os que já fez. Mas, na manhã seguinte, verifica que é muito inferior ao seu trabalho habitual. Sem dúvida os períodos dionisíacos de abandono têm o seu valor, especialmente nesta civilização onde a criatividade e as artes morrem a míngua, sob a rotina dos relógios de ponto e das reuniões intermináveis, além da pressão para produzir quantidades cada vez maiores de trabalhos e de livros, pressões que infestam mortalmente o mundo intelectual, mais do que o da indústria. Sinto falta dos efeitos saudáveis dos períodos de "carnaval", como os que existem ainda países mediterrâneos. 
Contudo, a intensidade do ato criativo deve estar relacionada com o encontro de forma objetiva, e não liberado por algo "ingerido" pelo artista. O alcool é um depressor, talvez necessário a civilização industrial, mas, quando se precisa dele constantemente para eliminar a inibição, o problema está sendo mal colocado. A questão é: porque existem estas inibições? Os estudos psicológicos desta intensificação súbita da vitalidade e de outros efeitos de drogas são interessantes; mas é preciso distinguir definitivamente esses efeitos da intensidade que acompanha o encontro, o encontro não é apenas um resultado das mudanças subjetivas; representa o relacionamento real com o mundo subjetivo.
O aspecto importante e profundo do princípio dionisíaco e de êxtase. O teatro grego surgiu baseado nas orgias de Dioníso, um apogeu magnífico de criatividade, que conseguiu unir a forma e a paixão à ordem e à vitalidade. Êxtase é o termo técnico para os processos nos quais esta união ocorre. 
O êstase devia ser melhor estudado pela psicologia. Emprego a palavra não no sentido vulgar de "histeria", mas no sentido histórico e etimológico de "ex-stasis" - isto é literalmente "ficar fora de", libertar-se da dicotomia da maior parte das atividades humanas entre sujeito e objeto. êxtase é o termo exato para a intensidade de consciência que ocorre no ato criativo. Mas não pode ser um mero "desligamento" báquico; envolve a totalidade do indivíduo onde subconsciente e inconsciente agem em uníssono com o consciente. Não é, portanto, irracional; é supra-racional. Conjuga o desempenho das funções intelectuais, volitivas e emocionais. 
Isso tudo pode parecer estranho a luz da psicologia acadêmica tradicional. Tem de parecer estranho. Nossa psicologia tradicional baseia-se na dicotomia do sujeito-objeto, que tem sido a principal característica do pensamento ocidental nos últimos quatro séculos.
Ludwig Binswanger denominou essa dicotomia "o câncer de toda a psicologia e psiquiatria de nosso tempo. Não escapam dela as escolas de Behavoristas ou Operacionalistas, que definem a experiência em termos apenas objetivos. Também não será evitada se isolarmos a experiência criativa como um fenômeno puramente subjetivo."

Extraído do livro "A Coragem de Criar, de autoria de Rollo May, publicado no Brasil pela editora Nova Fronteira.
Páginas 44, 45, 46 e 47

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